Caminho da Luz, Minas Gerais – planejamento para o Santiago de Compostela brasileiro

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É hooooooje! Sim, nesse fim-de-semana começo a trilha mais longa que já fiz na vida, 200 quilômetros que serão percorridos em sete dias. Estou falando do Caminho da Luz, na zona da mata mineira, também conhecido como o “Santiago de Compostela brasileiro”.

Descobri este caminho há pouco mais de dois meses, visitando uma cachoeira em Minas com meu irmão – a Cachoeira Surpresa, entre Faria Lemos e Carangola, e que está no trajeto dos percurso mineiro. Na volta, ele me levou até onde começa o Caminho da Luz – nesse lugar aí da foto que abre o post, onde fica a Cachoeira de Tombos, a quinta maior em queda d´água do Brasil. Lá eu li algumas informações sobre a rota e desde então fiquei com esse passeio na cabeça.

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Não deu outra. Um mês depois eu já estava entrando em contato com agências locais, buscando mais informações para fazer o caminho e percorrendo quilômetros e quilômetros a pé diariamente para começar a me preparar.

No início eu queria ir sozinha, de maneira independente, carregando minha mochila e vendo pelo caminho onde iria dormir e como iria comer. Mas depois de pesquisar bastante, por fim acabei fechando um pacote de nove noites com o apoio da Rastros de Luz, a agência oficial do Caminho há mais de dez anos. O pacote já inclui tudo, desde hospedagem, refeições, inscrição, ingresso para o Parque Nacional do Caparaó, carro para carregar minha mochila mais pesada, guia para subir o Pico da Bandeira. Um luxo!

O problema é que não há muita dica sobre o Caminho da Luz na internet – ainda! Eu queria ler mais sobre pessoas que foram, o que acharam, ver mais fotos, conversar com mulheres que foram sozinhas. Só que muita gente, como eu até o início desse ano, nem sabia da existência do Caminho da Luz. Pô, galera! Nós temos um Santiago de Compostela aqui dentro de casa e nem estamos ligados nisso? Bora mudar isso aí! Quando eu voltar, pretendo escrever tudinho sobre o caminho aqui contando tintim por tintim como foi minha experiência. E incentivar o máximo de pessoas a percorrerem nosso caminho brasileiro também.

Por enquanto, vamos às informações básicas sobre o Caminho da Luz?

HISTÓRIA

O trajeto recebe esse nome de Caminho da Luz porque durante o percurso há fragmentos de mica e de cristais que emergem do solo, proporcionando um brilho especial. Sinalizado em 2001 com o objetivo de resgatar toda a sua autenticidade, o percurso carrega muita história. Ele era a rota percorrida pelos índios, que há mais de 300 anos peregrinavam por essas terras em direção ao Pico da Bandeira, a Montanha Sagrada do Brasil.

PERCURSO

O Caminho da Luz tem início na cidade de Tombos, a 380km de Belo Horizonte, e termina em Alto Caparaó, onde fica o lado mineiro do Pico da Bandeira.

São cerca de 200km que podem ser percorridos a pé em 7, 8 ou 9 dias. Ou também a cavalo ou de bicicleta, em menos dias. Vale considerar também a grande variação de altitudes: começa em 238m e chega a 2.890m, no alto do Pico da Bandeira, o terceiro mais alto do Brasil. Você passará por fazendas centenárias, matas, cachoeiras, santuários. Dizem que é um percurso bem bonito.

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A cada pernoite, sua credencial será carimbada, assim como acontece no Santiago de Compostela.  A previsão é de começar diariamente a caminhada por volta de 7h da manhã e chegar ao destino seguinte entre 13h e 15h, a depender do ritmo de cada um.

Esses são os possíveis pontos de pernoite:

Tombos, na divisa de MG e RJ

Sugestão de visita: monumento em homenagem aos índios esculpido na margem da Cachoeira de Tombos (infelizmente proibida para banho)

Catuné

Sugestão de visita: monumento em homenagem a Nossa Senhora de Lourdes (padroeira da cidade) e a mulher peregrina na porta da Gruta da Pedra Santa

Pedra Dourada

Sugestão de visita: escultura de mais de 2 metros de altura de São José abençoando um peregrino estrangeiro. Próximo dali, também tem um peregrino feito em aço.

Faria Lemos

Sugestão de visita: monumento em homenagem a São Mateus (padroeiro da cidade), à criança peregrina e ao afrodescendente na porta da Igreja Matriz.

Carangola

Sugestão de visita: escultura de mais de 2 metros de altura de Santa Luzia abençoando um peregrino deficiente visual na porta da Igreja Santa Luzia (reconhecida pelo Papa Bento XVI como Santuário, local de indulgência como Santiago de Compostela). E suas belezas naturais, como a Gruta de São Bento e as cachoeiras do Bambu Amarelo, do Boi e o Vale do Papagaio.

Caiana

Sugestão de visita: monumento em homenagem a São João Batista (padroeiro da cidade), ao peregrino idoso e aos templários protetores dos peregrinos da Terra Santa

Espera Feliz

Sugestão de visita: monumento em homenagem a São Sebastião (padroeiro da cidade) e ao cavaleiro peregrino na porta da Igreja Matriz. E algumas de suas muitas cachoeiras, como do Chiador, Pedra Furada, Paraíso, do Edimário

Caparaó ou Galileia

Em Galileia, procure por: montanha conhecida como Altar dos Índios, local onde os primeiros habitantes do nosso país costumavam fazer rituais de preparação para seguir em direção ao Pico da Bandeira, onde iam adorar o Deus Ruda, ou Deus da Criação.

Alto Caparaó

Sugestões de visita: Igreja do São Paulo Apóstolo e Marco do Triunfo (uma escultura em ferro com o símbolo do Caminho da Luz)

Distâncias aproximadas:

De Tombos a Catuné – 24,7km

De Catuné a Pedra Dourada – 19,25km

De Pedra Dourada até Faria Lemos – 25,2km

De Faria Lemos a Carangola – 22,85km

De Carangola a Espera Feliz – 33,3km

De Espera Feliz a Caparaó – 20,12km

De Espera Feliz a Alto Caparaó – 33,95km

DE Alto Caparaó ao Pico da Bandeira – 18,1km

 

QUEM PODE IR

Milhares de peregrinos do Brasil e do exterior, de 7 a 80 anos, fazem o Caminho da Luz. As inscrições são feitas no Hotel Serpa, em Tombos. É indicado adquirir a credencial antes de partir, pois você precisará andar por algumas propriedades privadas ao longo da rota, e com ele em mãos, poderá mostrar que apenas está de passagem e que seu objetivo é apenas concluir o percurso.

 

INSCRIÇÃO

A inscrição é feita no Hotel Serpa, em Tombos, e custa R$120 por pessoa. Esta é uma taxa de manutenção do caminho. O peregrino receberá um guia em papel sobre o Caminho da Luz, uma camiseta, uma credencial e, ao final, um certificado de Caminhante da Luz (é necessário carimbar a credencial em todos os pontos de pernoite ao longo do percurso).

 

DÁ PARA IR POR CONTA PRÓPRIA

Há muitos turistas que não gostam de fechar grupos para viajar com agência (eu sou uma dessas!). Para esses, recebi as informações de que é possível ir sozinho e de forma independente, pois o caminho é bem sinalizado com setas amarelas e os moradores pelo caminho são muito receptivos. Ainda assim, como não consegui muitas informações online, preferi fazer para esse percurso com tudo organizado por uma agência. Na volta vou poder contar melhor minhas impressões.

 

QUEM LEVA

Eu vou com a agência Rastros de Luz, há mais de dez anos a agência oficial que leva os peregrinos para fazer o Caminho da Luz. Eles oferecem três pacotes: um mais basicão, que inclui apenas hospedagem por nove noites e custa R$600; outro mediano, com hospedagem e mais alguma coisa incluída e que custa R$900; e o completão, que é o que vou fazer e custa R$1800 por pessoa. O mais top inclui a credencial, um cajado, hospedagem por 9 noites, café da manhã e jantar todos os dias, lanche e suco durante o percurso, um carro para levar as bagagens de cada peregrino, um carro 4×4 para levar até o pé do Pico da Bandeira, ingresso para o Parque Nacional do Caparaó, um guia para acompanhar a subida ao Pico da Bandeira. É para quem não quer mais comodidade mesmo. Depois vou contar tudinho como foi!

Também há caminhadas coletivas e você pode ver todas as informações e preço aqui.

 

COMO SE PREPARAR

A Rastro de Luz recomenda, antes de fazer o Caminho da Luz, praticar pelo menos duas horas de caminhada por dia, durante no mínimo 15 dias, utilizando o calçado que pretende usar durante o caminho (isso é muito importante!).

Já faz algum tempo que não sou mais 100% sedentária como eu era. Faço trilhas mais curtas e rotineiros exercícios ao ar livre (já corri mais, hoje em dia dou uns trotes e caminho mais que corro). A verdade é que, sejamos sinceros, não é fácil encontrar tempo disponível no dia a dia para praticar treinos longos como o Caminho da Luz exige. Comecei caminhando diariamente cerca de 5km, aos poucos fui aumentando até chegar a 10km diários e em algumas vezes isoladas fiz entre 15km e 18km num dia. Sempre caminhando em ritmo rápido e evitando paradas. Na volta eu conto se foi suficiente 😛

 

O QUE LEVAR

Dicas da Rastro de Luz:

– o calçado mais aconselhável para caminhadas de longa distância é a bota, por dar maior firmeza aos pés e proteger os tornozelos, ou ainda tênis com protetores de impacto (mas ainda há aqueles caminhantes que preferem usar a papete, sandália própria para caminhada, boa para aliviar os pés e evitar que as bolhas feitas pelo calçado se compliquem)

– protetor solar;

– capa de chuva;

– óculos de sol;

– chapéu ou boné (em épocas de calor, a chapéu de palha, pois é mais ventilado e cobre maior área do corpo);

– carregar sempre água potável;

– remédios de uso pessoal (e para dores musculares);

–  Roupas de uso pessoal;

– lanterna

– agulha e linha para o caso de aparecimento de bolhas;

– tesourinha:

– esparadrapo ou micropore;

– água oxigenada;

– vaselina em pasta para a aplicação nos pés;

– cantil;

– isqueiro;

– material de higiene pessoal;

– para quem irá subir o Pico da Bandeira durante o dia, não há a necessidade de levar roupas pesadas, apenas um casaco leve para cortar o vento do Pico. Mas o calor é o mesmo que em lugares mais baixos;

–  evitar trazer coisas desnecessárias para não sacrificar a caminhada com excesso de peso.

Eu acrescentaria: repelente, uma pequena toalha absorvente de secagem rápida, um benjamim (muitas das hospedagens são simples e você pode precisar dividir a tomada com alguém), um cajado e máquina fotográfica, claro! 😀

Mais dicas da Rastro de Luz: com relação às roupas, quanto menos carregar, melhor. Elas podem ser lavadas ao longo do trajeto, secando à noite ou durante a caminhada, presas do lado de fora da mochila. Para tanto, tenha consigo 2 a 4 prendedores de roupa. Dê preferência aos tecidos leves, que pesam menos e não impedem a respiração da pele. Para a subida ao Pico da Bandeira, o ideal é subir usando uma roupa mais leve e levar calça de moletom, luvas, touca e casaco para frio, para serem vestidos no topo da Montanha Sagrada, onde o vento é gelado e, dependendo da época, as temperaturas podem ser negativas à noite. Contudo, durante o dia, apenas uma camiseta e uma bermuda são necessárias, pelo fato de o calor ser forte, mas no topo venta bastante, sendo necessário um casaco leve para cortar o vento.

Para entrar em contato com a Rastro de Luz, fale com o Vitor Hugo no contato@rastrodeluz.com.br.

Bom, essas são as dicas gerais para quem, como eu, está planejando fazer o Caminho da Luz e estava precisando de uma luz (hahaha) sobre o assunto! Vou tentar trazer um diário da viagem aqui para o blog durante o percurso. Mas, como não sei se terei WiFi ou se estarei cansada demais (rsrs), prometo na volta contar tudinho como foi e complementar as dicas acima! Se você já fez esse caminho, conhece outro desse tipo no Brasil ou quer me dar qualquer dica, comenta aqui embaixo! E forçaaaaaaaaa para eu conseguir chegar ao topo do Pico da Bandeira, o mais alto alcançável por trilha no Brasil!

Para pesquisar hospedagens em Minas Gerais, clique aqui.

Carla Boechat é jornalista, mestranda, curiosa que só, carioca da clara, inquieta e turista por vocação - e criação. Sempre com a mochila e um sorriso prontos, aposta que toda estrada pode esconder uma dica em potencial. E aqui é assim: se ela foi e gostou, virou post!

Discussion20 Comentários

  1. Pingback: Caminho da Luz, Minas Gerais – Dias 5 e 6 | Fui, gostei, contei | por Carla Boechat

  2. Pingback: Caminho da Luz, Minas Gerais – Dias 7 e 8: a esperada subida ao Pico da Bandeira! | Fui, gostei, contei | por Carla Boechat

  3. Que coisa, né! Algo mais que existe no Brasil e não fazemos nenhuma idéia até alguém (como você) divulgar!
    Muito legal mesmo… Quero saber como foram os seus dias por lá!

  4. Eu achei esse post bastante útil, pois além das dicas necessárias ele ajuda a divulgar o Caminho que parece ser um pouco desconhecido ainda né?
    Parabéns pelo post e por empreender o caminho. Abraço

    • Ei, Poliana!
      Sim, o caminho ainda é desconhecido para muitos.. E espero que se torne mais popular, pois é aqui tão pertinho da gente e tão lindo, que vale muito a pena ir!
      Obrigada pela visita

  5. Só fui saber que existia esse caminho com você. Parece ser um passeio muito interessante e é uma pena que aqui no Brasil não seja muito falado. E é o tipo de passeio que me interesso 😉
    Achei RS 120 um valor justo para manter o local, afinal, são 200km, né? É muita coisa!
    Super úteis suas informações de valores, o que levar (você usa água oxigenada em caso de se ferir?), como é o caminho e a indicação da agência que levar.

    • Ei Gabi! Obrigada pela visita <3
      Pois é, também acho um valor mais que justo.
      Olha, nunca me feri, nem mesmo com bolhas. Então nunca precisei utilizar água oxigenada.. Vi o pessoal lá usando linha e agulha pra bolhas.
      Beijao

  6. Olá!
    Vou fazer esse trajeto, preciso da sua ajuda, rs…
    Me de uma sugestão sobre q roupas levar , irei nos mês q vem , maio…
    Bjs!

  7. Oi! Entrei em contato com o rastro de luz e hoje eles tem dois pacotes, a diferença de preço é de 900,00, então estou cogitando ir no mais barato para economizar 900,00, mas esse mais barato não tem as refeições inclusas, apenas café da manhã, nem os lanches. Você, que já foi, acha que eu gastaria mais ou menos quanto em lanches e refeições? Além disso, não tem a diária no Alto Caparaó. O que você acha?
    Obrigada!

    • Ei, Angélica!
      Olha, no geral você pode gastar bem pouco nas refeições lá se quiser. Considere uns 15 reais por refeição + lanches que você pode comprar no mercado.
      Sai mais em conta sim!

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