San Fermin, Espanha – misto de esporte e loucura num festival que suscita paixões

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Hoje temos como convidados aqui no blog o casal Nívia e Jaime do blog Juntando Mochilas. Eles contam um pouco sobre o Festival de São Firmino, na Espanha. E, preciso confessar, fiquei louca pra conhecer esse festival depois do relato deles! Vejam só se não dá vontade também!

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Ainda nas primeiras horas do dia 6 de julho, as ruas de Pamplona, no norte da Espanha, são tomadas por pessoas vestidas de calças e camisas brancas com faixas vermelhas amarradas à cintura e lenços menores nos pulsos. Turistas, moradores e até o rapaz que descarrega o caminhão de bebidas, todos estão vestidos da mesma forma mostrando a força daquela tradição. São milhares deles.

Milhões. Toda essa massa se espalha pelo centro histórico da cidade, capital da província de Navarra. Alguns buscam por telões espalhados em vários locais públicos, mas boa parte da turba quer mesmo é entrar na Plaza Consistorial, já lotada. No local, câmeras de todos os canais de televisão da região transmitem ao vivo as imagens da multidão e da fachada da prefeitura, não só para a Espanha, como para vários países do mundo. Ao meio dia em ponto, um representante do governo, igualmente vestido de branco e vermelho, surge no alto de uma das janelas, saúda a todos e acende um pequeno foguete que explode no céu.

No chão, de forma quase automática, acontece a explosão da fiesta. Abraços, gritos, bebedeira, banho de vinho e exposição gratuita de seios, de mulheres sem receio de serem fotografadas ou filmadas, acontecem de forma enérgica. Em meio a isso tudo, os panos vermelhos, chamados de pañuelos, que estavam amarrados aos pulsos já podem ser colocados em volta dos pescoços, completando a tradição que cerca a abertura daquele festejo. Começa oficialmente o festival de San Fermín.

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Tão popular quanto secular, a festa ganhou alcance mundial através do livro “O Sol também se levanta” do escritor americano Ernest Hemingway, um apaixonado pela cultura das touradas. O festival de São Firmino também é mundialmente conhecido pelos encierros, como são chamadas as corridas de touros, que ocorrem todos os dias.

A tradição surgiu quando os pastores chegavam para o festival com o gado, vindo de regiões distantes da Espanha, e conduziam os animais pelas ruas, nas primeiras horas do dia, em direção à arena onde seriam mantidos até o início das touradas. Ao longo desse trajeto, algumas pessoas acompanhavam o translado dos animais, ajudando os pastores a mantê-los no rumo. Muitos dessas pessoas eram os açougueiros da cidade, cuja roupa branca e vermelha serviu de base para a tradicional vestimenta.

Os anos se passaram e o encierro ganhou ares de esporte para os que levam a sério essa ‘brincadeira’, e se tornou uma prova de fogo para os turistas mais aventureiros. Muitos espanhóis participam da corrida todos os anos como prova de devoção ao santo, e ainda pela diversão da corrida em si. Chegam cedo e buscam lugar no começo do trajeto, onde há uma imagem de São Firmino. Em frente à imagem, corredores experientes rezam e cantam pedindo proteção para a corrida.

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O caminho entre as cocheiras e a arena de touros passa por quatro ruas e uma praça, e possui 840 metros totalmente cercados com madeira. Jovens inexperientes se aglomeram antes que os acessos sejam fechados, às 7h30 da manhã, como é de praxe. Enquanto a corrida não começa, fazem aquecimento, conversam e esperam ansiosos pelo sinal.

Às 8h em ponto, são lançados os primeiros foguetes e as porteiras se abrem. Os corredores saltam, na tentativa de avistar os touros e prever o tempo de chegada dos mesmos, mas tudo acontece muito rápido e nem sempre os planejamentos são bem sucedidos. A grande massa começa a avançar, alguns jovens desistem e tentam pular as cercas, mas são impedidos pelos guardas.

Enquanto isso, homens mais experientes tentam correr ao lado dos touros, tocando-os com as mãos ou com os jornais que seguram. Em pouco mais de 2 min de corrida, homens e touros chegam à arena. Os corajosos se confraternizam pelo término daquela empolgante corrida, que é transmitida e reprisada várias vezes pela televisão local, com audiência fiel e atenta, digna de final de Copa do Mundo. O ritual se repete durante os sete dias da festa.

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Mas para apreciar esse misto de esporte e loucura não é necessário correr. Tem gente que chega cedo e busca lugar próximo aos bloqueios, nas ruas adjacentes. Outros preferem pagar por um espaço nas varandas das casas do entorno, onde, além de gozar de uma vista privilegiada, têm uma farta mesa de café da manhã e televisão disponíveis. Há ainda quem compre ingressos para ver a chegada dos touros à arena, onde são soltos pequenos touros, para correrem atrás dos participantes ali presentes, para delírio da plateia.

Apesar dos riscos evidentes, ironicamente, a maioria dos feridos são vítimas da própria multidão. Pessoas esbarram umas nas outras, caem e são pisoteadas por outros corredores. Em casos mais cômicos, acabam batendo de frente com uma parede de tanto olhar para trás na expectativa da chegada do animal. Todos os anos a cruz vermelha se instala na cidade para socorrer os feridos e muitas ambulâncias ficam dispostas ao longo do trajeto. Até um hospital de campanha é montado para receber os feridos e bêbados, para que o hospital local não seja tumultuado e continue atendendo normalmente.

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Mortes acontecem, mas as estatísticas vão na contramão do perigo. Apenas 15 mortes ocorreram desde o início da contagem, em 1924. A última aconteceu em 2009, quando um jovem participante foi pressionado contra uma das proteções por um dos touros, e o chifre perfurou um de seus pulmões. Curiosidades como essa, você encontra no Museu do Encierro, espaço dedicado a contar a história das corridas de touros de Pamplona. Lá, estão informações e detalhes sobre o trajeto, uma exposição sobre Hemingway e até simuladores para treinamento. Capuccino, o touro responsável pela última morte nas corridas, está exposto no local, empalhado.

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No resto do dia, o que se vê pela cidade é um mar de gente em roupa alvirrubra se divertindo de todas as formas. Bandas de músicas saem às ruas tocando canções locais enquanto o vinho é fartamente consumido, não apenas para beber, como para tomar banho. No fim do dia, as roupas estão inutilizáveis. Os excessos são frequentes e é fácil encontrar grupos de amigos em despedidas de solteiro, ou empurrando lixeiras com o colega mais bêbado dentro, até serem contidos pela polícia.

Outra ‘brincadeira’ perigosa praticada no festival é o fuenting, em que os mais destemidos escalam os 3 metros da Fonte de Navarrería e em seguida saltam de lá para os braços dos amigos. No que depender da prefeitura, a brincadeira está com os dias contados, pois nem todos os saltos acabam bem sucedidos. Muitos acidentes graves já foram contabilizados, o que fez com que folhetos fossem distribuídos na tentativa de desestimular a prática.

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Entre tantas manifestações profanas, o lado tradicional da festa tem espaço forte no festival. A procissão de São Firmino, que acontece no dia 7 de julho, é acompanhada por milhares de pessoas. Apesar da grande devoção, ironicamente São Firmino não é o padroeiro da cidade. Natural de Pamplona, São Firmino foi convertido ao catolicismo por São Saturnino – este sim, padroeiro de Pamplona – e ordenado bispo aos 24 anos. Terminou sua vida decapitado em uma conspiração dos governantes da época, tornando-se mártir da Igreja Católica.

Ir a um evento dessa grandiosidade merece um bom planejamento prévio. Os leitos da cidade são ocupados rapidamente e não atendem a demanda de turistas. Para ilustrar tal fato, o Hemingway Hostel, único albergue da rede Hostelling Internacional presente na cidade, abre suas reservas no dia 1º de janeiro e já no dia 5, está lotado para o festival de julho. O que ocorre é que muitas das pessoas que vão ao festival compram pacotes do tipo “bate e volta” a partir de cidades como Barcelona e Madrid. Outros viajam para o festival sem ter lugar certo para dormir, e o que se vê é muita gente pelas praças, gramados e até em cabines telefônicas dormindo agarradas às malas, para evitar furtos. O festival termina na noite do dia 14 de julho, no mesmo lugar onde começou.

Milhares de pessoas com velas em punho se reúnem na praça em frente da prefeitura e, cantando a canção Pobre de Mi, lamentam o término do festival e se despedem da fiesta daquele ano. Nessa hora o ritmo desenfreado dá lugar a uma calma despedida. Um sentimento de que, mais do que uma celebração, o festival é o que há de mais importante para aquela cidade.

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Do ponto de vista turístico, não há dúvidas, pois, no restante do ano, Pamplona é uma cidade pacata e seus hotéis rebem alguns poucos hóspedes, a maioria peregrinos fazendo o caminho de Santiago de Compostela. Mas, além do Turismo, existe um sentimento maior de paixão pelo festival e pelo santo que é notado principalmente nas redes sociais durante os meses que antecedem o evento. Uma das principais canções faz a contagem regressiva para o festival e não é incomum as pessoas usarem a hashtag #YaFaltaMenos quando se referem aos dias que antecedem ao festival. A paixão desse povo pelo seu festival só é possível medir vendo tudo de perto.

No Juntando Mochilas tem mais dois posts sobre esse festival:

A experiência San Fermín

As corridas de touros de San Fermin

E aqui no Fui, Gostei, Contei você também encontra várias dicas da Espanha:

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Carla Boechat é jornalista, mestranda, curiosa que só, carioca da clara, inquieta e turista por vocação - e criação. Sempre com a mochila e um sorriso prontos, aposta que toda estrada pode esconder uma dica em potencial. E aqui é assim: se ela foi e gostou, virou post!

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