O “ser” e o “ter” – Uma vida fora dos padrões estabelecidos pela sociedade

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Dizem que certos caminhos da vida muitas vezes nos ensinam que o “ser” é muito mais valioso que o “ter”.

Muita gente não entende como uma menina normal como eu que, aos 29 anos de idade, não tenha grandes ambições como comprar um carro ou dar entrada num apartamento próprio. Formada em Jornalismo numa das melhores faculdades da área no Rio, com mestrado em Marketing na melhor escola de negócios da América Latina, com todas as condições ditas favoráveis para seguir o padrão de “vida estável” que a sociedade tanto espera de uma jovem que investiu muito tempo e dinheiro em estudos, vários cursos, morou fora, fala três línguas, conhece muita gente, tem uma família sensacional que a apoia.

Enfim, uma menina normal. No auge de seus 29 anos- é quase 30! Abrindo mão de “estabilidade”. Fugindo ao padrão de “normalidade” que esperam dela. Mas… O que é estabilidade exatamente? De acordo com o dicionário, é solidez e segurança; permanência ou duração; algo que não se altera.

Peraí. Mas o que eu busco é justamente o contrário disso. Não busco permanência, mas avançar. Não quero ser algo que não se altera, mas ter a capacidade de me adaptar ao novo, de mudar, de melhorar. Quero segurança sim, mas segurança do que eu vivi e que ninguém jamais vai poder tirar de mim.

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Sabe como é, eu não preciso contratar um seguro para que ninguém roube de mim as experiências que eu já tive. Cada viagem que eu fiz é minha por contrato vitalício e não vai se depreciar com o tempo. Enquanto edifícios têm vida útil de 25 anos, móveis de dez anos, carros de apenas cinco anos… A vida útil de cada viagem que guardo comigo é eterna.

Quando dizem que uma viagem minha custaria a entrada de um carro zero, eu tenho vontade de abraçar essa pessoa e chamar para um dedo de prosa. Primeiro porque minhas viagens são muito mais baratas do que a maioria pensa. Segundo porque… Sério, eu acabei de quebrar paradigmas, de conhecer gente nova e com visões diferentes da minha, uma cultura super rica, trouxe histórias de vida, percorri X países incríveis em um mês inesquecível mochilando. E você quer comparar tudo isso com a entrada de um carro?

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Vamos começar do começo. A entrada do carro é o de menos. Junto com ela virão mensalidades, IPVA, estacionamento, gasolina, manutenção, seguro, flanelinha (grita aí se eu estiver esquecendo de mais alguma coisa! Sabe como é… Aos 29 anos eu nunca tive um carro). E agora sou eu que te respondo e te conto um segredo: Eu não viajo tanto por ser rica. Eu também poderia ter um carro legal – se eu quisesse. Mas é que somando essa grana aí eu faria um mochilão de um ano, sei lá, na Ásia! Tem noção da riqueza que é isso?

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Me deixa continuar andando de ônibus, metrô, trem, balsa, carona, a pé, de bike, Uber, Blablacar, carona. Pra ser sincera, eu nem gosto de dirigir e minha carteira de motorista, que eu tirei aos 22 anos, venceu e nunca foi renovada. Cada um tem as suas prioridades. Eu respeito o seu sonho de ter um carro, ou seja lá o que for que te faça sentir realizado. Desde que você respeite o meu de viver fora do cubículo que a sociedade chama de vida normal e estável.

Eu nem deveria entrar no mérito da casa própria. Numa época em que as pessoas estão em constante mudança, valorizam morar perto do trabalho e mudam de empresa como trocam de iPhone, casam cada vez mais tarde, adiam a decisão de ter filhos, se divorciam antes mesmo de terem pensado em procriar… Por que se fixar em um endereço de onde você pode querer (ou precisar) se mudar a qualquer hora?

Seja livre para se mudar quando quiser. Seja de bairro, seja para um apartamento maior ou menor, seja de cidade, seja de país. Seja temporário, seja de vez.

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Não ter um apartamento hoje em dia tem me dado um certo alívio – vou contra a maré da multidão que precisa ter seu porto seguro. Assim tenho a liberdade de trabalhar e construir laços onde eu quiser. Quantas mudanças eu já tive que fazer nos últimos 12 anos desde que deixei a casa dos meus pais no interior do Rio. Perdi as contas! Me desfazer de coisas, doar para os outros porque nem tinha onde deixar enquanto morava em outro lugar, quanta grana já gastei pagando frete e comprando tudo de novo porque eu doei aquilo para alguém na última mudança.

Coisas, coisas, coisas. Não carrego nada daquilo comigo, nem me lembro da maioria dos “objetos indispensáveis” que eu quis comprar para minha última casa. O que eu mais guardo dessas andanças foram as pessoas com quem compartilhei não apenas meu apê, mas meu dia-a-dia ‘ minha vida! – e que me ensinaram muito.

Hoje vivo meio solta – nômade ainda seria uma palavra muito forte para descrever meu estilo de vida, mas é uma expressão que me instiga. Não que me fixar em algum lugar seja um problema – em alguns momentos da vida é necessário – mas tomei gosto por ter a liberdade de ir e vir, viajar, sair, voltar, matar as saudades, trabalhar, estudar, ir de novo. Tenho que agradecer muito a todos que abrem a porta de suas casas para mim quando estou por aqui, e à minha família que vibra a cada vez eu eu chego em Itaperuna. E aos infinitos hotéis, hostels e pousadas parceiros que sempre têm o prazer em me receber, seja no Rio de Janeiro, ou em qualquer canto do mundo.

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É a vida que eu escolhi para mim. Percebi que ser dona de bens materiais caros não seria exatamente o que iria me trazer felicidade. E venho a cada dia me policiando para viver cada vez mais com menos – é uma tarefa árdua que vocês nem imaginam. Carregando menos bagagem e tendo menos posses para deixar para trás, eu fico livre para poder sempre ir e vir e me sobra dinheiro para comprar experiências ao invés de bens materiais. Passagens aéreas são a minha nova moeda de conversão – para onde eu conseguiria ir com o preço desse sapato?

Se eu pudesse, a única posse que eu faria questão de carregar comigo para qualquer lugar seria a minha família. Mas aí, se você perceber, deixamos de falar sobre “coisas”. Estamos falando de um bem incomparavelmente mais valioso que um carro ou uma casa própria. E cuja vida útil eu gostaria que fosse eterna…

Hoje eu sei que não troco nenhum bem material pela experiência de viver tudo o que eu vivo. Eu só espero ter saúde e determinação para continuar colecionando toda a minha rica fortuna de vivências indescritíveis. E que nunca seja preciso mais que uma simples alegria para me fazer aquietar o espírito. Papo sério, o que mais o coração de um viajante pode desejar?

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Carla Boechat é jornalista, mestranda, curiosa que só, carioca da clara, inquieta e turista por vocação - e criação. Sempre com a mochila e um sorriso prontos, aposta que toda estrada pode esconder uma dica em potencial. E aqui é assim: se ela foi e gostou, virou post!

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