Contos de Ilhabela – como eu me encantei pelo litoral paulista

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Aquele monte de ciclovia e pessoas de bicicleta pelas ruas já começou me instigando em Ilhabela. Para mim, as melhores maneiras de percorrer e conhecer um lugar são a pé ou de bike. Fui logo perguntando o preço, achando que seria uma pechincha, e levei um susto: R$50 a diária. “Poxa, bem mais caro que no Rio!”, sussurrei. A Ida, que trabalha na secretaria de Turismo de lá, na mesma hora falou: “Eu te empresto a minha”. A gente tinha se conhecido há mais ou menos uns 15 minutos. Retruquei, falei que ela ia precisar. Ela retrucou de volta. “Amo bicicleta, tenho mais de uma em casa. Se eu soubesse que você também gostava, já tinha trazido uma pra você!”. Mas já estava anoitecendo, ficando tarde, ela com hora marcada pra aula de yoga. Agradeci o carinho e falei que depois víamos isso.

Passa a cena.

No dia seguinte acordei cedo. Tomei café da manhã. Logo depois fui até a recepção confirmar para que horas meu passeio do dia estava agendado. Era para 10h da manhã. Olhei no relógio, eu tinha uns 40 minutos para ir até a parte comercial do bairro comprar umas coisinhas. Ia dar uns 10 a 15 minutos andando. Tinha que somar ida e volta. Apertado. Comentei do meu impasse com o Júlio, gerente do Boutique Hotel Kalango, onde eu estava hospedada. A resposta dele foi simples e rápida: vai na minha bicicleta! Eu titubeei – gente, como assim pegar a bicicleta do gerente e ir pedalando pro centro! Antes que eu tivesse tempo de armar uma desculpa pra recusar, ele já foi me levando pra porta do hotel, abriu o cadeado da bicicleta, me entregou e me mandou ir sem preocupação. E eu fui.

Volta a cena.

Assim que cheguei a Ilhabela, me arrumei e comi algo correndo porque íamos ver o pôr do sol de um dos picos de lá. Fui preparada com tênis e mochilinha. Subimos parte do Morro dos Mineiros, no caminho pro Pico do Baepi, em uns 10 a 15 minutos. Parecia fácil, mas era inclinado que só. Sofremos um cadinho (eu mais que todo mundo, eles acostumados com as trilhas da ilha), mas na chegada já demos de cara com um mirante de madeira grande, ótimo pra um descanso admirando Ilhabela de cima. Eu estava acompanhada do pessoal da secretaria de Turismo, o Aurélio, o Heitor e a Ida – a da primeira história da bicicleta. Ela tinha levado uma canga e um som pequeneninho para embalar o momento. Contou que sempre vai para lá, às vezes leva um vinho, às vezes só relaxa. Perguntou o que eu gostava de ouvir. Chegamos a um consenso de que Jack Jonhson ia dar samba ali. E deu, sem um acorde de cavaquinho – e foi lindo! O dia se pôs. Na volta no carro, a caminho do hotel, quando vi, já estava apegada a Ilhabela.

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Olha a canga ali no chão…

Passa de novo.

Voltei de bicicleta rapidinho pro hotel porque não queria perder o passeio das 10h. Imagina, era dia de conhecer Castelhanos, uma das praias mais bonitas de Ilhabela! Cheguei correndo pra devolver a bicicleta do Júlio e dei de cara com o Luís, que ia me guiar no passeio do dia. Pedi desculpas se estava atrasada, e ele respondeu que não, que ele gosta mesmo de chegar antes para buscar os clientes. E nessa hora lembrei de uma brincadeira que o Júlio havia feito logo antes, enquanto lia meu blog no computador da recepção do hotel. Ele viu que, no meio de posts, tinha umas histórias e eu falava de pessoas que conheci. E brincou: “Será que eu também vou entrar para essas histórias?”. Aproveitei o tempo extra que eu tinha, fui até o Luís, o guia, e pedi pra ele bater uma foto. Minha na bicicleta do Júlio. E ele: “Ah, mas tira essa bicicleta do cadeado, né! Vai ficar muito falso assim. Solta e vem mais pra cá”. E tirou umas cinco fotos. Taí: olha eu toda feliz depois de andar de bike por Ilhabela – obrigada, Júlio! Me senti uma local da ilha por aqueles minutos!

Me achando a local em Ilhabela...
Me achando a local em Ilhabela…

Perdida.

No dia em que recusei a bicicleta da Ida, fui dar um passeio a pé à noite pelo meu bairro, o Perequê. O percurso até a região com mais comércio, apesar de curto, era mais deserto e, claro, eu virei na rua errada e me perdi. Vi umas pessoas vindo de bicicleta, e na hora deduzi que eram minhoca da terra (ou, em outras palavras, gente nascida ali mesmo). Parei pra pedir informação. Duas pessoas com sotaque espanhol me deram a direção num português perfeito. Me senti inconformada, com gringos desbravando cantinhos brasileiros antes de mim – e ainda me ensinando o caminho certo. Só que esse Brasil é grande demais pra querer conhecer de uma vez só!

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No passeio.

Era dia de semana de inverno (em tese, baixa temporada), mas tinha quórum pro passeio das 10h, que ia de jeep até Castelhanos. Comigo foram também mais 4 russos: um casal, a irmã de um deles e mais um amigo. Na ida tudo mais quieto, eu batendo papo com nosso guia, o Luís, através da janelinha que dava pro banco da frente. Muitos buracos e sacolejos depois, chegamos à primeira vista pro mar. Os russos ficaram doidos. Pediram, por favor, para darem um mergulho. A próxima parada era, na verdade, a trilha até a Cachoeira do Gato, no lado esquerdo de Castelhanos. Mas diante daquele deslumbre deles com a orla brasileira, o Luís liberou 15 minutos pra eles mergulharem. E vi dois adultos virarem criança na água. Aproveitarem até o último minuto. Numa água gelada de inverno. Eles de bermuda curta, mergulhando sem medo. Os locais que moram na ilha usando casaco e calça comprida. Valeram os 15 minutos. E me deu uma pontinha de inveja daquela alegria toda com o mar. Gringos curtindo meu país com muito mais entusiasmo e entrega que eu mesma. Mas também deu orgulho dessa beleza toda de país que a gente tem. É bonito mesmo!

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Russos de bermuda x Locais de casacão

No almoço.

Na volta da Cachoeira do Gato, lá em Castelhanos ainda, há uma parada no lado direito da praia, onde há mais infra, com restaurantes e pousadinhas (é a parte que deve ficar cheia no verão). Lá tínhamos um tempo livre para almoçar e curtir, antes de partir de volta à “cidade” da ilha. Eu estava viajando sozinha, então já ia me dirigir para buscar uma mesa pequena quando os russos me convidaram a almoçar com eles. Fui. Mas o restaurante só aceitava dinheiro – e, eu, desligada que só, só tinha cartão. Os russos disseram que pagariam, que eu acertava depois sem problemas (e ao final do passeio fomos juntos ao banco e acertei as contas). Me salvaram nessa. Brindamos com uma caipirinha de folha de mexerica – típica da região e deliciosa! E eles ficaram doidos com a mistura de peixe com feijão, farofa, arroz, salada, tudo junto. Mas nem terminaram o prato. Correram pra aproveitar o tempo que tinham no mar. E viraram crianças de novo.

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Tipo crianças.. e se divertindo mais que todo mundo!
Tipo crianças.. e se divertindo mais que todo mundo!

Aproveitei a deixa para fotografar a vila de moradores, simples e linda. A praia vazia estava uma delícia de curtir – mas o mar estava com umas ondas gigantes de dar medo. Na hora de voltar, todos já devidamente sentados no jeep, um dos russos pediu que parasse e gritou o garçom. Só ouvi “Cachaçaaaa!”. O garçom veio com uma garrafa. Ele pediu um copo para cada um. Recebi um copo de plástico cheio até a metade. E o russo me explicou que essa é uma tradição deles: não se vai embora sem a saideira! Nunca! E a cachaça embalou mais ainda a nossa volta e cada pulo quando o carro passava nos vários buracos. No meio do caminho descobri que o casal russo estava lá em lua de mel. Já felizes da vida, ou talvez cachaçados mesmo, cantamos (eu tentei) o hino da União Soviética e até o hino brasileiro mais conhecido mundialmente – nesse caso a música “Nossa, nossa! Assim você me mata. Ai se eu te pego, ai se eu te pego”. Os russos sabiam tudo. E o Luís, nosso guia, só ria no volante! Se bobear, foi quem mais se divertiu.

Cachaçaaaaaaaaaaaaaa!
Cachaçaaaaaaaaaaaaaa!

Ah… Já ia me esquecendo. Todas essas histórias aconteceram nas minhas primeiras 24 horas em Ilhabela.

Cenas dos próximos capítulos.

Não sei se deu pra perceber (será que não?! rs), mas eu AMEI Ilhabela. Não só porque é linda, mas porque pelo caminho conheci pessoas incríveis. Tanta gente que largou vida em São Paulo, emprego em multinacional, rotina atolada… pela tranquilidade de se viver na ilha. Pessoas que escolheram Ilhabela, e que amam aquilo ali de uma maneira tão simples e sincera que dá vontade de largar tudo pra ir ver como que é também. Eu queria ter ficado lá ao menos mais uma semana. Mas foram apenas três dias. Aos poucos vou contar mais sobre os passeios que fiz, com dicas mais didáticas, vou falar do hotel maravilhoso onde me hospedei, do meu primeiro mergulho, das cachoeiras, dos restaurantes, das trilhas. Fiquem de olho aqui! Secretaria de Turismo de Ilhabela e demais parceiros, obrigada pela oportunidade de vivenciar um pouco do que vocês têm como quintal. Foi incrível! Espero poder voltar logo – enquanto isso recordo a viagem dando dicas da ilha que é o lar de vocês.

Carla Boechat é jornalista, mestranda, curiosa que só, carioca da clara, inquieta e turista por vocação – e criação. Sempre com a mochila e um sorriso prontos, aposta que toda estrada pode esconder uma dica em potencial. E aqui é assim: se ela foi e gostou, virou post!

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