Tem bastante gente me perguntando como fiz para vir para a França durante a pandemia de Covid-19, já que brasileiros ainda estão proibidos de entrar nos países da União Européia. Então decidi escrever esse artigo contando como foi minha experiência e quais foram as exigências do governo francês para minha imigração.

Antes de mais nada, é importante dizer que eu tenho dupla cidadania – brasileira e italiana. Portanto, o que me permitiu vir para a França no final de Agosto foi o meu passaporte europeu. Mas, como eu estava pegando um voo saindo do Brasil, que não faz parte da lista verde de países autorizados já que a pandemia está fora de controle desde seu início, precisei seguir algumas regras a fim de ter minha entrada autorizada no território francês.

A escolha do voo

Eu comprei minha passagem aérea com minhas Smiles. Escolhi viajar com a AirFrance em um voo direto do Rio de Janeiro para Paris. Havia uma companhia aérea mais em conta, a AirEuropa, porém faria escala na Espanha, que estava sofrendo uma segunda onda de Covid-19. Além disso, na internet li muitas reclamações sobre a higiene nos aviões deles.

Em meio a uma pandemia onde o básico tem sido justamente a higiene constante, me senti insegura de viajar com eles e preferi pagar um pouquinho mais caro (10.000 milhas a mais) para viajar com a AirFrance – já viajei com eles em outras duas ocasiões e gostei bastante do serviço. Além disso, a AirFrance é uma empresa francesa e poderia me orientar melhor sobre o processo de imigração.

Foi uma decisão acertada. Nem sei quantas vezes eu liguei pra eles para tirar dúvidas, e sempre fui atendida super rápido e os funcionários foram extremamente solícitos.

Ar no interior das cabines renovado

Além disso, a Airfrance me passou maior segurança pois conta com um sistema onde o ar no interior da cabine dos aviões da Airfrance é renovado a cada 3 minutos. Essa é a informação constante no site deles:

“Nossas aeronaves são equipadas com um sistema de reciclagem de ar que consiste em filtros HEPA «High Efficiency Particulate Air» idênticos aos usados ​​em salas de operação, que retêm 99,9% das partículas. O ar na cabine é, portanto, renovado a cada 3 minutos”.

Embarque com a AirFrance

No dia em que viajei, uma sexta-feira saindo do Galeão no Rio de Janeiro, o aeroporto estava vazio. Havia apenas dois voos internacionais (o meu pra França e outro pra Holanda) e praticamente todas as lojas e restaurantes estavam fechados. O processo de check-in foi muito rápido e não solicitaram os documentos exigidos para entrar na França além do passaporte (vou explicar melhor abaixo).

Despachei bagagem, entreguei o passaporte italiano e não me pediram mais nada. Perguntei sobre o resultado do PCR para Covid-19, exigido pra entrar na França, e me disseram para guardar e entregar na chegada aqui porque iriam pedir.

O embarque também foi bastante organizado respeitando o distanciamento entre pessoas. Além disso, mediram a temperatura de cada viajante antes de entrarmos no avião (a minha deu 36,9 graus). O uso de máscara cirúrgica era obrigatório.

Dentro do voo da AirFrance

O meu voo não estava cheio e a AirFrance respeitou o distanciamento, bloqueando as poltronas do meio. Assim tivemos um espaço maior para o passageiro ao nosso lado. O uso de máscara deveria ser obrigatório durante todo o voo, sendo liberado apenas durante as refeições. Mas a verdade é que eu vi algumas pessoas sem a máscara ou usando-a apenas na boca e com o nariz de fora.

Isso me deixou bem neurótica. A vantagem de eu ter levado minha própria comida foi que eu tirei minha máscara para comer num horário em que a maioria do avião estava com a proteção.

As bebidas foram servidas como de costume – tomei duas garrafinhas de vinho pra me acalmar hahaha Ofereceram cobertor, fone, tudo como de costume. O voo tinha Wi-Fi gratuito para WhatsApp e redes sociais. Consegui me conectar, mas estava bem lentinho. Achei a sessão de filmes disponibilizados bem pobrinha. Muitos filmes franceses, poucos lançamentos ou filmes mais conhecidos e a grande maioria sem legendas ou tradução em português. Como eu estava bem nervosa, mal consegui dormir durante o voo e fez falta ter mais opções de entretenimento.

Refeições limitadas

Em voos longos (acima de 8h30 de duração, que foi o meu caso), a AirFrance está gradualmente reintroduzindo um serviço de refeições mais completo com mais opções e produtos embalados individualmente. Isso foi algo que me chateou um pouco. Uns dias antes do meu voo, eu liguei para eles para informar minha restrição alimentar (não como carnes), como sempre faço em qualquer viagem de avião, e fui informada de que não estão atendendo nenhum tipo de restrição devido à pandemia e que seria melhor eu levar minha própria comida para o voo.

Assim fiz. Porém adivinha? A única opção de refeição quente servida foi 100% vegetariana. Bom, paciência, né?

Chegada na França

A chegada na França durante a pandemia de Covid-19 foi bem tranquila. O aeroporto Charles de Gaule em Paris estava bem cheio, com muitos voos confirmados, mas processo de imigração foi rápido. Entreguei o passaporte italiano, o resultado do teste de Covid-19 e os documentos assinados e não me fizeram nenhuma pergunta.

Exigências de imigração na França

Como eu comentei acima, o Brasil não faz parte da lista verde de países autorizados a ingressar na União Europeia. Há algumas exceções, como ser cidadão da União Europeia (o meu caso) e familiares diretos, pessoas com vistos nacionais de longa duração, profissionais de saúde, trabalhadores fronteiriços, diplomatas, passageiros em trânsito, entre outros. Veja a lista completa nessa matéria da Folha.

E todas essas exceções, quando em voo saindo do Brasil, devem seguir uma série de exigências para ter a entrada permitida na França durante a pandemia de Covid-19. Essas foram as regras para o período da minha viagem (voei no dia 29/08/20):

  • realizar o teste PT-PCR que detecta Covid-19 até 72 horas antes do horário do voo e apresentar o resultado negativo
  • em caso de não apresentar o resultado negativo do PCR antes do embarque, seria conduzido para realizar o teste no aeroporto de chegada na França
  • se nesse momento o resultado desse positivo, seria solicitada quarentena de 14 dias e a companhia aérea entraria em contato com todos os passageiros daquele voo informando que havia uma pessoa contaminada no avião e solicitando o mesmo período de isolamento (informei email, meu celular e também o telefone de uma terceira pessoa para que fizessem contato, além do endereço onde estaria hospedada, e ninguém entrou em contato comigo, então presumo que não houve casos positivos no meu voo)
  • preencher e assinar dois formulários que estão nesse site, um atestando não ter tido sintomas de Covid-19 nos dias anteriores ao voo e outro com informações do meu motivo de viagem (no meu caso eu só assinalei a opção de que sou uma cidadã européia)
  • utilizar máscara cirúrgica N95 durante o voo e no aeroporto da França (eu comprei uma máscara bacana, que pode ser reutilizada por até 30 dias, mas tinha uma galera usando as máscaras descartáveis mais básicas)
  • levar uma sacolinha plástica para depositar máscaras usadas, luvas ou qualquer coisa que precisar
  • levar álcool gel para higienizar mãos e objetos em tamanho inferior que 100ml

O teste do covid antes de viajar

Realizei o exame PT-PCR no laboratório Sérgio Franco de Niterói. Foi necessário ter pedido médico e custou R$340, com resultado em até 3 dias. Foi bem difícil conseguir um laboratório que me garantisse a entrega do resultado em menos de 72 horas para que eu cumprisse com a exigência do governo francês. O Sérgio Franco, por exemplo, me garantiu que entregaria o resultado em dois dias quando fiz o agendamento por telefone. Porém, ao chegar lá, me disseram que não garantiam isso e que poderia sair em mais do que 3 dias, apesar de não ser comum esse atraso.

Fiquei bem nervosa com tudo isso. O resultado do meu teste acabou saindo no dia seguinte, mas foi uma agonia enorme pensar que poderia atrasar. Ao chegar no laboratório, mediram minha temperatura e me pediram para colocar uma máscara disponibilizada por eles por cima da minha. Foi necessário agendamento prévio e pedido médico.

A AirFrance tem parceria com dois laboratórios no Brasil que concedem desconto a passageiros com voo confirmado com a companhia aérea. São o grupo Fleury em São Paulo e a clínica Felippe Mattoso no Rio de Janeiro.

No entanto, quando cheguei no aeroporto em Paris descobri que o teste PT-PCR estava sendo disponibilizado gratuitamente a todos os passageiros que não tinham o resultado em mãos. Os pontos negativos de deixar pra fazer o teste aqui na chegada na França durante a pandemia de Covid-19 são a longa espera depois de um voo cansativo e também a incerteza de como será o processo de entrada. Como eu já tinha um resultado negativo em mãos, estava mais tranquila de que não teria problemas na imigração.

Onde consultar quais são as exigências vigentes

Eu utilizei diferentes sites para me informar sobre as exigências de imigração na França durante a pandemia de Covid-19, sendo que alguns deles foram recomendados pela própria AirFrance como fonte confiável de consulta.

Deixo aqui os links para você se informar:

As regras e países autorizados a entrar na União Europeia são atualizados a cada 15 dias. Esse foi o documento criado em 30/06 que resume as normas. Entre as informações divulgadas, está claro que cada Estado-membro mantém a responsabilidade de avaliar se, caso a caso, um nacional de um país terceiro deve ser considerado uma ameaça à saúde pública. Ou seja, cada país tem soberania para barrar a entrada de qualquer viajante se julgar necessário.

Quando brasileiros poderão viajar para União Europeia?

Infelizmente ainda deve demorar para que brasileiros que não estejam nas exceções que comentei acima possam entrar nos países da União Europeia. Isso porque é necessário cumprir com alguns requisitos de combate ao coronavírus para fazer parte da chamada lista verde. E o Brasil está bem longe de lograr a maioria deles. Na América do Sul, o único país que faz parte dessa lista atualmente é o Uruguai.

Para entrar para a lista verde da União Europeia, o Brasil precisaria, por exemplo, registrar por 14 dias consecutivos um número de novos casos próximo ou abaixo do que foi registrado pela UE em 15/06/20, de 16 novos casos para cada 100 mil habitantes (hoje o Brasil está numa média de 350 novos casos para cada 100 mil habitantes), tendência de novos casos no mesmo período estável ou decrescente em comparação aos 14 dias anteriores.

Resposta global ao Covid-19 tendo em conta as informações disponíveis sobre testes, vigilância, rastreamento de contatos, contenção e tratamento (o Brasil falha na maioria desses requisitos) e transparência na divulgação de relatórios e confiabilidade das informações e fontes de dados disponíveis também são alguns dos critérios (mais um problema brasileiro, já que foi necessário que veículos de comunicação formassem uma parceria para dar transparência a dados de Covid-19 no Brasil devido a limitações impostas pelo Ministério da Saúde).

Para onde brasileiros podem ir?

Em resumo, a coisa anda complicada. No entanto, há outros países que permitem a entrada de brasileiros. Recomendo dar uma olhadinha nessa lista do Melhores Destinos que vem sendo atualizada constantemente. A Ana do @pelagalaxia recentemente se mudou para o Reino Unido, que está permitindo a entrada de brasileiros, e contou os detalhes no Instagram dela.

Se ainda ficou alguma dúvida sobre como foi meu processo de imigração, me conta aqui nos comentários. Vou respondendo pra ajudar quem também está pensando em vir pra França durante a pandemia de Covid-19!

11 Comentários

  1. Oi Carla! adorei seu relato, estou há dias querendo ir pra França visitar meu filho que estuda lá, assim como vc eu tbem tenho o passaporte italiano, mas pelas regras da embaixada membros de países da União Europeia só poderia entrar na França se estivessem a caminho do seu “país”.

    “Estão autorizados a ingressar no território francês:
    – Franceses, seus cônjuges e filhos;
    – Nacionais da União Europeia ou de Andorra, Reino Unido, Islândia, Liechtenstein, Mônaco, Noruega, Suíça, São Martinho e Vaticano que tenham residência principal na França ou devam passar pelo território francês para retornar ao seu país de nacionalidade ou residência, bem como seus cônjuges e filhos;”

    Eu telefonei no consulado francês em SP e me disseram a mesma coisa, mas lendo seu relato eu me animei a ir, sua viagem foi recente?

  2. Boa noite. Li seus comentários e gostaria de saber se vc tem como me informar se sendo brasileira mas minha filha morando na França legalmente e gravida se consigo entrar em Paris ou se indo para o Reino Unido e fazendo quarentena se entro na França. Obrigada

  3. Oi Carla! Também sou cidadã europeia e vou pra Paris sábado. No documento obrigatório a ser preenchido para a imigração, qual opção você marcou? Não achei no modelo um que indicava apenas cidadão da União Europeia.
    Muito obrigada pelo seu post! Me deu mais tranquilidade para ir 🙂

  4. Quero viajar pra França dia 29/10 para passar 10 dias com meu namorado que trabalha no exército, será que vão deixar eu entrar?

  5. Olá! Gostaria de saber se pode tirar minha dúvida que ando pesquisando mas não acho nada em específico falando sobre.
    Meu noivo, brasileiro com residência em Portugal, vai ao Brasil no dia 22/12/2020 e retorna no dia 29/12/2020, e na volta ele tem uma escala em Paris.
    Como é residente, ele pode deixar para fazer o exame de Covid no aeroporto ao chegar em Portugal, Mas gostaria de saber se mesmo só com uma parada de 2 horas na França eles vão exigir teste de Covid-19? Porque se exigir ele não poderá deixar para fazer no aeroporto na chegada e terá de fazer no Brasil para em Paris ter ele em mãos. Enfim, espero que tenha entendido minha dúvida. Obrigada!

    • Ei, Eduarda! Puxa, não tenho essa informação pra te dar. Além disso, as regras têm mudado constantemente, então o ideal é você entrar em contato com o consulado da França pra tirar essa dúvida e ter uma informação oficial.
      Desejo boa sorte pra vocês e que tudo dê certo!

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