Minha saudade não mudou…

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“Saudade é um amor que nunca morre…”. Em dezembro de 2013 terminei assim o comentário em um texto que até hoje me toca quando releio. Me lembro que na época admirei a autora pelas palavras tão delicadas para falar da saudade que sentia durante sua viagem de volta ao mundo. Eu nem imaginava, então, viver o que vivo hoje, mas consegui sentir o que ela transmitia de uma maneira tão forte, que esse texto me marcou e fiquei imaginando se algum dia eu teria toda essa maturidade para falar sobre saudade e distância.

Não tenho. Estava conversando agora com minha mãe pelo whatsapp, e na hora de dar boa noite e me despedir, me deu um nó no peito. Não sei ainda quando vou em casa de novo, e isso aperta meu coração. Na mesma hora me veio esse texto na cabeça. E nesses momentos gosto de reler palavras que tragam à tona meus sentimentos mais puros. Foi o que fiz. Entrei naquele blog que eu não acessava há anos, procurei a parte “Devaneios”, fui rolando para baixo até encontrar essas palavrinhas que me foram familiares. “Minha saudade mudou”.

Reli tudo, com o coração acelerado e apertadinho que só. Buscando um conforto em cada palavra, uma justificativa para mim mesma para viver longe assim, para não me sentir culpada, para tentar entender que a saudade pode ser um sentimento bom. Suspirei a cada parágrafo, até terminar o texto e me deparar ali, no finalzinho, com meu comentário. E me arrepiei mais uma vez. Me vi até hoje, quase quatro anos depois, tentando de uma forma bastante desengonçada lidar com esse sentimento tão constante.

Saudade. A única parte ruim das minhas viagens. Já escrevi algumas vezes sobre isso aqui, e acho que ainda vou escrever outras tantas. Num exercício contínuo até que eu aprenda a lidar com esse sentimento tão irracional, tão doloroso, tão desafiador. Talvez uma tentativa de “cauterizar minhas feridas ao abri-las”.

É lindo sair e ir viver o mundo. Mas é difícil abrir mão de tudo o que fica esperando a sua volta. O preço dessa liberdade é alto, e eu sinto a cada dia o peso disso. Fui eu que escolhi viver assim, e eu sei o quanto me faz feliz ter tudo isso e inspirar outras pessoas. E de tropeço em tropeço, vou levantando mais forte, planejando minha volta em casa, matando da forma que dá aquilo que está me matando.

Ainda não amadureci o suficiente. Minha saudade ainda me dói. Mas no fundo, no fundo, não sei se quero que isso mude. Me dói, mas me mostra que, ainda que eu tenha saído pra ganhar o mundo, continuo a mesma. Tenho comigo meus amores, meus sentimentos, minhas lembranças. Por muito tempo esperei que minha saudade também mudasse e amadurecesse. Mas continuei com essa alma de criança, ansiando mais que antes pelo próximo abraço.

Estarei para sempre dividida, preciso aceitar. Mas que coisa boa é a gente se dividir por dois sentimentos tão gostosos: estar com quem a gente ama ou fazer o que a gente ama. Pai, mãe, irmão, a saudade é enorme. E ela não mudou nadinha. Parece que está ainda mais forte que antes.

Os próximos meses vivendo (mais uma vez) no deserto mais árido do mundo serão longos. Mas quando vocês menos esperarem estou batendo aí de novo. E, ao me despedir, vou carregar comigo uma saudade ainda mais dolorida. Obrigada por fazerem esse sentimento ser tão forte. Isso me faz ainda mais viva e preenche meu coração enquanto estou fora. “Saudade é presença”. Amo vocês. Muito. Demais.

— O texto ao qual me referi aqui é do blog Escapismo Genuino, da Tete Lacerda. Li pela primeira vez há anos, e me vem à cabeça todas as vezes que sinto muita saudade de casa. Leia aqui: “Minha saudade mudou”.

Mais devaneios meus sobre minhas saudades aqui no blog…

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Carla Boechat é jornalista, mestranda, curiosa que só, carioca da clara, inquieta e turista por vocação - e criação. Sempre com a mochila e um sorriso prontos, aposta que toda estrada pode esconder uma dica em potencial. E aqui é assim: se ela foi e gostou, virou post!

Discussion2 Comentários

  1. Compartilho do mesmo sentimento, nunca deixei de ter saudades e não quero deixar! E como diz Caetano: Saudade até que é bom, melhor que caminhar vazio… Lindo texto, Carlinha!

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