No primeiro artigo do Diários da Pandemia eu trago o relato do Jorge. Ele é do Equador e está “preso” no Brasil desde Março sem conseguir voltar ao seu país de origem devido ao COVID-19. Veio passar férias e, mais de três meses depois, ainda não teve como voltar pra casa.

Vale a pena a leitura desse artigo da BBC com 7 gráficos que mostram o avanço acelerado do coronavírus na América Latina

Quem é o Jorge

Meu nome é Jorge, sou do Equador, tenho 25 anos e vou contar para vocês sobre minha experiência preso no Brasil há três meses, desde que começou a pandemia do coronavírus.

Em Agosto vou me formar em Engenharia de Alimentos no Equador, e estou fazendo as aulas finais online daqui do Brasil mesmo – essa semana estou em época de provas e até Agosto tenho que terminar minha tese. Eu tinha tudo planejado e pronto pra começar minha própria microempresa no início desse ano no meu país, mas com a pandemia tudo mudou.

Eu estou desde Março na casa do meu irmão no Rio de Janeiro. Ele mora aqui no Brasil porque se casou com uma brasileira, que, aliás, é uma das melhores amigas da Carla.

“Preso” no Brasil há três meses

Eu estava fazendo uma viagem pela América do Sul, tudo começou dia 24/02 quando comecei a viajar por Perú, Bolivia, Chile, Argentina e finalmente Brasil, onde estou desde 08/03. Cheguei a conhecer Foz do Iguaçú e Florianópolis e 16/03 cheguei no Rio de Janeiro pra passar uns dias. Ou seja, quando foi declarada Pandemia do Coronavírus pela OMS, eu já estava no Brasil.

Tudo aconteceu bem rápido, de repente o Equador fechou os aeroportos e não podia entrar nenhum voo mais. Após um tempo de espera, o governo no Equador ofereceu uma opção que eu considero muito ruim para os equatorianos fora do país: pagar $600-900 dólares americanos para um voo “humanitário” do Brasil pro Equador. E, quando chegasse lá, teria que pagar mais $400-700 para ficar em um hotel fazendo quarentena. Ou seja, no mínimo $1.000 dólares americanos pra voltar pra casa. Só que isso é muito dinheiro para mim, eu economizei muito tempo para fazer essa viagem, então preferi ficar mais tempo no Brasil até que tudo começasse a regularizar.

Mas não foi tão simples como imaginei no início. A pandemia no Brasil cresceu muito, muitos casos, muitas mortes, o Brasil acabou como o segundo país no mundo com mais casos de Covid-19. E está bem difícil sair daqui agora. A experiência de ficar no Brasil tem sido ótima, conheci muitos lugares maravilhosos, tive a sorte de conhecer a família de minha cunhada. Mas estou com saudade de minha casa. 

Com a família da minha cunhada no Brasil, comemorando meu aniversário na fazenda deles

Como está a quarentena no Equador

As cidades no Equador estão sendo classificadas por “semáforos”, a depender do número de casos de coronavírus. Há algumas no vermelho, a maioria no amarelo e poucas no verde. À noite tem toque de recolher, e caso precise sair tem que ter um “salvo conducto” (documento emitido pela polícia que permite a saída dependendo do motivo).

Quito, a capital, está em semáforo amarelo. Há muitos problemas de corrupção no Equador, então as pessoas acabam falando muito só disso, como se o problema do coronavírus já tivesse acabado, sabe? Vejo que as pessoas estão começando a sair mais, mas mais devagar, não como no Brasil onde há tanta gente na praia.

Então no Equador continua a quarentena, o governo exigiu fazer uma quarentena rigorosa e por isso fechou os aeroportos pro Brasil. Até onde sei, o único voo comercial que está operativo é, ironicamente, entre Estados Unidos e Equador. 

Tudo tem um lado positivo?

Pra não falar apenas de coisas ruins, teve um detalhe que me favoreceu aqui no Brasil. No Equador a moeda oficial é o dólar americano. E como o Real chegou a R$6-$1, eu pude comprar muitas coisas para vender no Equador. Então foi muito bom para mim nesse sentido, vou conseguir fazer uma graninha. 

Mas por outro lado, é muito triste ver tantas pessoas que estão morrendo no Brasil, o governo não faz nada pra regularizar a pandemia e se o governo brasileiro pensa continuar assim, a pandemia nunca vai ser controlada e o Brasil todos os dias vai ter mais e mais casos e mortes. 

E o retorno ao Equador?

Agora no Brasil eu acho que estão mais ou menos 150 equatorianos sem poder voltar pra casa. Alguns têm passagem aérea, outros não têm dinheiro para os voos “humanitários” do governo. Agora acho que vai sair um voo dia 07/07 e que custa $600, mas ninguém quer comprar porque precisa de um número mínimo de tripulantes pro voo acontecer e claro que pouca gente vai ter como pagar esse valor. 

Eu espero de todo coração que tudo melhore para o Brasil e também para os equatorianos que querem voltar a suas casas. Tenho esperanças de voltar pra minha dia 07, porém a novidade agora é que a companhia aérea não permite comprar despacho extra de bagagem e eu tenho, além de tudo, até uma prancha de surf. Vou e deixo minhas coisas pra trás? Não queria fazer isso.

Uma semana antes de pegar o voo obrigatoriamente tenho que fazer o teste do COVID19. Independente do resultado, se positivo ou negativo, eu posso viajar pro Equador. O que muda é o que vai me permitir ao chegar lá. Se der positivo, tenho que fazer quarentena por um tempo em um hotel (ou seja, gastar mais e mais dinheiro). Só posso fazer quarentena em casa se der negativo. Já são mais de três meses longe de casa.

Com amigos no Equador, de quando ainda era possível fazer esse tipo de encontro e tirar foto abraçados

Coronavírus no Equador hoje

Hoje, dia 28/06/20, o Equador tem 54.574 casos confirmados de infectados, 5.500 recuperados e 4.270 mortes. O país registrou o maior número de mortes per capita na América do Sul, com cerca de 25 por 100 mil pessoas. Os casos relatados diariamente no Equador estão se estabilizando, mas essa não é a tendência nos outros países vizinhos.

5 Comentários

  1. Nossa complicado!
    Namorado argentino da minha madrinha americana tb esta na mesma situação…vieram passear no Brasil, ele foi 3 dias antes dela para Buenos Aires e ela ficou aqui no Brasil, quando foi embarcar para Argentina para passear e de lá retornarem para USA, ela já nao conseguiu ir ao encontro dele e acabou retornando para USA e ele até hoje está “preso” em Buenos Aires.

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