Você talvez tenha visto recentemente notícias sobre a primeira foto de um buraco negro. O fenômeno invisível, até então representado apenas em ilustrações, produções artísticas e simulações, foi registrado graças aos esforços de centenas de pesquisadores e cientistas de mais de 40 países. A imagem foi capturada por uma rede global de telescópios, composta por 8 observatórios. Um deles pertence ao Projeto Alma, localizado no coração do nosso deserto preferido, o Atacama.

Despertou o seu interesse? Nunca tinha ouvido falar desse observatório? Pois é, o Projeto Alma dificilmente está na mira dos que visitam o Deserto do Atacama, muitas vezes por desconhecimento.

Bastante diferente do popular Tour Astronômico, a visita ao Alma é a oportunidade perfeita para entender um pouquinho mais o nosso fantástico universo. Por isso, resolvemos explicar o que é esse observatório, onde ele fica e como é o tour por suas instalações.

O que é o Projeto ALMA?

O poético nome Alma, na verdade, é uma sigla para Atacama Large Millimeter/Submillimeter Array, que poderíamos traduzir para algo como Grande Conjunto Milimétrico/Submilimétrico do Atacama. Não que isso signifique muita coisa para leigos, não é mesmo?

Basicamente, é uma referência à sua principal função: varrer os céus em busca de ondas milimétricas e submilimétricas, isto é, aquelas que têm um comprimento na ordem do milímetro. Dentro do espectro eletromagnético, essas ondas se situam entre o infravermelho e as ondas de rádio.

Pouquíssimos telescópios conseguem captar ondas tão pequenas, já que elas costumam ser bloqueadas pela atmosfera, principalmente por moléculas de água. Aliás, é por isso que o local escolhido para a construção desse observatório foi o Atacama, de altitude elevadíssima e clima seco: aqui a interferência atmosférica é menor.

Se você lembra das aulas de física, já sabe que essaz ondas estão fora do espectro visível para humanos. Isso significa que, ao contrário do senso comum, os cientistas do Alma não “vêem” nada com os telescópios, apenas captam ondas que depois serão processadas como dados em computadores.

Portanto, o Projeto Alma estuda a radioastronomia e, para isto, utiliza radiotelescópios, gigantescas antenas parabólicas. Para ser mais preciso, são 66 antenas, a maioria delas com 12 metros de diâmetro. Isso faz deste centro o maior complexo astronômico do mundo!

O que o Alma estuda?

Estrelas, planetas, galáxias e outros corpos celestes emitem radiação: o tipo, a potência e frequência das emissões de rádio desses astros é o objeto de estudo do Alma. Astrônomos se dedicam a estudar nebulosas, núcleo de nuvens escuras e berçários de estrelas, para entender a formação e a evolução das galáxias, muitas delas nos limites do Universo observável.

Alguns desses corpos celestes estão tão distantes que podem nem mais existir: os sinais que recebemos foram emitidos há mais de dez bilhões de anos! Você consegue imaginar a tecnologia necessária para poder analisar uma molécula de uma galáxia a milhões de ano-luz? O Projeto Alma proporciona ferramentas fundamentais para o entendimento de questões ligadas às nossas origens cósmicas.

Como o Alma funciona?

Essa é uma pergunta complexa, que vamos deixar para os guias especializados do Projeto Alma responderem em detalhes. Mas, resumidamente, podemos dizer que as antenas trabalham como pequenos fragmentos de um olho gigante (que, ironicamente, nada vê).

Essa técnica de combinação de telescópios é chamada de interferometria. As antenas tanto podem trabalhar individualmente quanto de forma coletiva e podem ser deslocadas para cumprir diferentes objetivos.

Quando os astrônomos precisam de um campo de visão grande, as antenas ficam agrupadas, cobrindo uma porção maior do céu, porém com menos nitidez. Quando as antenas são afastadas, ocorre o contrário: apenas uma pequena parte do céu é observada, mas com uma precisão extraordinária.  

Projeto Alma: símbolo da cooperação entre países

Dá pra imaginar que construir uma estação de pesquisa científica de ponta no deserto seja o olho da cara, né? E de fato, o investimento foi de 1,3 bilhões de dólares! Sem falar dos custos mensais de manutenção do espaço…

Mas não se preocupe! Vários países racham essa conta. O Projeto Alma surgiu a partir de uma parceria entre organizações da Europa, do Leste Asiático e da América do Norte, em cooperação com a República do Chile. Ele é financiado pela Fundação Nacional para a Ciência (NSF, na sigla em inglês) dos Estados Unidos, o Observatório Europeu do Sul (ESO) e o Instituto Nacional de Ciências Naturais do Japão. Depois de concluída sua construção, também aderiram ao projeto Canadá, Taiwan e Coreia do Sul.

O Brasil também poderia participar das observações astronômicas, por um acordo com o Observatório Europeu do Sul, assinado em 2011. Porém, uma contribuição de R$1 bilhão nunca foi paga, e o nosso país teve sua participação suspensa em 2018.

Como visitar o Projeto ALMA?

As instalações do Alma estão a 35km do centro de San Pedro, seguindo pela Ruta 23. A única forma de chegar lá é de carro privativo ou com os ônibus das visitas organizadas pela própria instituição.

Essas visitas públicas ocorrem todos os sábados e domingos, às 9h. Para poder participar, é necessário reservar com antecedência nessa página, já que as vagas obviamente são limitadas (e concorridíssimas!). Para garantir o seu lugar, você deve reservar pelo menos três meses antes.

Mas, caso já esteja tudo esgotado, inclusive a lista de espera, não se desespere. Muitos viajantes reservam sem ter certeza se estarão no local na data, por causa da pouca disponibilidade.

É bastante comum conseguir uma vaga de última hora. Para isso, basta comparecer ao ponto de partida, na esquina da avenida Pedro de Valdivia e da rua Tumisa (próximo à rodoviária), cerca de 45 minutos antes do horário de saída do ônibus.

Por volta das 8h30, um guia do Alma começa a organizar o grupo que visitará o Alma. A prioridade é dos inscritos confirmados, depois dos na lista de espera e, sobrando espaço, daqueles que não têm inscrição. Eles anotam os nomes por ordem de chegada, então quanto antes você estiver lá, melhor.

O que é visitado no tour ao Projeto ALMA?

O tour, guiado por cientistas em inglês e espanhol, percorre várias instalações do Alma OSF (Operations Support Facility), a base de operações do Projeto Alma. A visita começa em um longo corredor, onde uma série de painéis com lindas imagens ilustram a construção e o funcionamento do observatório e das antenas.

Depois, é apresentado um vídeo institucional e o passeio segue pela área administrativa, pelos laboratórios e pela sala de controle. Muitas vezes, esse é o momento de encontro com cientistas e pesquisadores, que, eventualmente, conversam com os visitantes e respondem a perguntas.

Em seguida, o guia apresenta a garagem e os transportadores de antenas, veículos construídos especificamente para deslocar esses equipamentos, que podem pesar mais de 100 toneladas!

Os caminhões até impressionam pela grandiosidade, mas o que todos realmente querem ver são as antenas. E isso, infelizmente, depende de um pouquinho de sorte. Se uma ou mais antenas estiverem em revisão ou manutenção, elas estarão dispostas logo ao lado, no pátio. Dada a quantidade de radiotelescópios, é bastante provável que pelo menos um esteja por ali.

Ao fim do passeio, os visitantes sobem mais uma vez ao ônibus e são levados para o centro de San Pedro. O ponto de desembarque é o mesmo do embarque, próximo à rodoviária. Geralmente, o grupo já está de volta lá pela 13h.

projeto alma atacama
Crédito: ESO/B. Tafreshi

Por que não é possível visitar as antenas do ALMA?

Não poder visitar as antenas do Projeto Alma é uma frustração compartilhada por muitos turistas. Para chegar até o local onde elas estão instaladas, no planalto de Chajnantor, a mais de 5 mil metros sobre o nível do mar, existe um protocolo de segurança internacional, que inclui exames clínicos e teste de pressão arterial.

Antigamente, o tour até incluía uma parada em Chajnantor, mas casos de pessoas com o mal de altitude se tornaram frequentes. Imagina a confusão para avaliar quem tem condições de subir e, chegando lá, depois de percorrer cerca de 30km, algumas pessoas passarem mal, obrigando todo o grupo a retornar, muitas vezes sem concluir o tour. Para evitar a desordem, as visitas turísticas simplesmente foram suspensas.

Afinal, vale a pena visitar o Projeto ALMA?

Muitas pessoas perguntam se realmente vale a pena visitar o Projeto Alma. Afinal, com tantas paisagens terrestres de tirar o fôlego no Atacama, convém dedicar uma manhã inteira da viagem para ouvir sobre descobertas científicas e as belezas do Universo?

A verdade é que… Depende. Para começar, você deve levar em conta quanto tempo tem disponível no seu roteiro. Se você tiver três dias ou menos, esqueça. Mais vale priorizar os outros passeios. Confira quantos dias ficar no Atacama de acordo com as atividades que você quer fazer.

Agora, se o tempo está sobrando, depende unicamente do seu gosto e interesses. Pessoas aficcionadas por conhecimento científico e avanço tecnológico com certeza vão apreciar a experiência. Porém, se o tema não for especialmente do seu agrado, a visita pode não ser tão atraente.

Isso porque o tour é bastante técnico e alguns turistas sentem falta de um estímulo ou uma demonstração mais prática. Além disso, como a visita é limitada ao centro de operações, não há garantia de que você verá uma antena.

Quem não entende razoavelmente bem inglês ou espanhol também corre o risco de sair decepcionado, já que muito do valor da experiência está nas explicações dos guias-cientistas.

Você já visitou o Observatório Alma? Compartilha com a gente como foi a sua experiência aqui nos comentários!

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