E se um grupo de artistas se unisse para formar um país? Ele existe: conheça Uzupis!

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Eu não esperava por isso. Visitar Vilnius e receber como dica: visite Uzupis (ou Uzupio), uma micronação aqui no centro da cidade. “Como assim micronação? Quer dizer…existe um país no centro da capital da Lituânia?”. Com um sorriso misterioso de canto de boca, o dono do hostel onde eu estava somente respondeu “Vá até lá e você vai ver”.

Não achei que fosse sério. Catei minha câmera, andei menos de dez minutos, atravessei a ponte do amor (cheia de cadeados no centro de Vilnius) e, ops, uma placa dizia que eu havia chegado à República Independente de Uzupis.

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Os símbolos na placa significam: todo mundo deve sorrir aqui; carros não andam acima de 20km/h já que em Vilnius todo mundo anda rápido nas ruas; este é um lugar artístico; cuidado com o rio, que cerca todo o nosso território.

Patrimônio Mundial da UNESCO, Uzupis (que significa “do outro lado do rio”, por estar cercado pelo rio Vilna”) declarou independência em 1997. Antes apenas um bairro habitado por artistas, boêmios e músicos, esta “separação” para se declarar uma nação foi um grito de independência após 50 anos de repressão sob o domínio comunista da Rússia. “A independência de Moscou não foi suficiente, então decidimos declarar independência de todo o resto de Vilnius”, declarou à época um dos cabeças do movimento.

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E em primeiro de abril de 1997 o bairro se tornou República Independente de Uzupis, ou um país dentro de outro país. Pela escolha da data, poderia parecer uma grande brincadeira. Mas a coisa é bem séria – ao seu modo próprio de ser sério. Eles têm presidente, bandeira, hino nacional, moeda própria, leis próprias, ministérios, um exército com aproximadamente 11 soldados e até mesmo uma Embaixada no Brasil (veja aqui a lista completa de Embaixadas pelo mundo todo) e um Consulado em São Paulo. E a ideia de escolher o dia primeiro de abril não foi uma coincidência, mas uma forma de enfatizar a importância de se manter o bom humor e a não importância de se tomar sérias decisões políticas.

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Só que eles ainda não são reconhecidos como nação. Mas não estão nem aí. Inclusive a constituição de Uzupis está escrita nas paredes da rua Paupio, a principal do “país”, em diversas línguas. Não havia em português, mas segue uma tradução livre de parte de sua constituição:

– Todo mundo tem direito de morrer, mas isso não é uma obrigação.

– Todo mundo tem o direito de ser único

– Todo mundo tem o direito de amar

– Todo mundo tem o direito de não ser amado, mas isso não é uma obrigação

– Todo mundo tem direito ao ócio

– Todo mundo tem direito de cuidar e amar um gato

– Todo mundo tem direito de cuidar de um cão até que um dos dois morra

– Um cão tem o direito de ser um cão

– Um gato não é obrigado a amar o seu dono, mas deve ajudá-lo em tempos difíceis

– Todo mundo tem o direito de estar em dúvida, mas isso não é uma obrigação

– Todo mundo tem o direito de ser feliz

– Todo mundo tem o direito de ser infeliz

– Ninguém tem direito à violência

– Ninguém tem o direito de culpar outra pessoa

– Todo mundo tem o direito de ter fé

– Todo mundo tem o direito de observar a própria insignificância

– Todo mundo tem o direito de entender

– Todo mundo tem o direito de não entender nada

– Todo mundo tem o direito de celebrar ou não seu próprio aniversário

– Todo mundo deve se lembrar de seu próprio nome

– Todo mundo pode compartilhar suas posses

– Ninguém pode compartilhar aquilo que não possui

– Todo mundo pode ser independente

– Todo mundo é responsável pela sua própria liberdade

– Todo mundo tem o direito de não ter direitos

– Todo mundo tem o direito de não sentir medo

– Não lute. Não se defenda. Não se renda.

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Acha que eu estou brincando? Leia a versão inteirinha aqui em inglês.

Você não encontrará shoppings, lan houses ou instituições governamentais em Uzupis (exceto a deles próprios). Mas verá diversas galerias de artes, cafeterias, barzinhos, arte nas ruas, restaurantes.

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Observe a estátua do Anjo Gabriel com um trompete logo na entrada da praça principal, simbolizando o renascimento e a liberdade artística do Leste Europeu.

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Procure também pela estátua do Jesus Mochileiro, com uma mochila nas costas e abençoando todos nós viajantes. Eu só soube dela depois que deixei Uzupis, mas queria muito ter visto e tirado uma foto!

Ah, não é necessário visto para entrar em Uzupis. Mas você pode carimbar seu passaporte. Para isso, logo depois da ponte do amor, você passará por um portal à sua esquerda onde vai ter uma placa de uma lojinha de souvenirs. É ali! Uma portinha próxima a uma escadaria. Veja nas fotos:

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Fala sério se não dá vontade de se mudar para um lugar desses? Já esteve em Uzupis ou em algum lugar curioso como esse?  Me conta aí nos comentários e aumente minha listinha de destinos a conhecer pelo mundo! 😛

Veja aqui o site oficial da República Independente de Uzupis.

E leia mais sobre minha visita à Lituânia:

Roteiro de dois dias em Vilnius, capital linda da Lituânia

Onde ficar em Vilnius, na Lituânia – Guesthouse Litinterp

Eurotrip: meu roteiro Áustria x Alemanha x Polônia x Países Bálticos x Finlândia x Rússia

Carla Boechat é jornalista, mestranda, curiosa que só, carioca da clara, inquieta e turista por vocação – e criação. Sempre com a mochila e um sorriso prontos, aposta que toda estrada pode esconder uma dica em potencial. E aqui é assim: se ela foi e gostou, virou post!

Discussion2 Comentários

  1. Adorei!
    Me mudaria hoje mesmo kkkkkkk
    A Constituição é a melhor que já vi! Todos os países do mundo deveriam adotar aquele artigos! hahahahaha 🙂

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