Minha primeira vez no Couchsurfing – desculpa, mas essa é incomparável

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Querem saber como eu pedi acomodação por duas noites no couchsurfing (numa casa que tinha essa vista da foto aí de cima), e de brinde ganhei o melhor e mais inesperado amigo e ainda um apartamento emprestado para morar sozinha e de graça aqui na Croácia? Senta que lá vem história…

“Na Polônia tem um dia no ano em que os poloneses pegam um morador de rua e o levam para almoçar. Na verdade não tenho certeza se é na Polônia, mas o que eu quero dizer é que a gente não precisa esperar um determinado dia do ano para ajudar alguém. Podemos fazer isso todos os dias, e é isso que eu faço. Tem uma pessoa de fora vindo pra minha cidade, eu acolho e ajudo no que puder…”. Essa frase foi dita pelo Seka, croata que me recebeu com a namorada, a Tatjiana, na casa deles por 12 dias quando cheguei a Zagreb acidentada após quebrar meu braço saltando de bungee jumping em Zrce Beach. Sim. 12 dias!

Eu achei o Seka através do site Couchsurfing (se você não sabe do que se trata, mais pra frente eu explico). E fiquei na dúvida se realmente deveria escrever no blog sobre essa minha primeira experiência como uma couchsurfer, simplesmente porque ela foi um ponto fora da curva e eu poderia alimentar uma expectativa alta demais nos surfistas de primeira viagem.

Apresento a vocês: Seka!!!!
Apresento a vocês: Seka!!!! O melhor host e amigo que eu poderia ter aqui!

Só que eu fui sortuda demais e preciso compartilhar o quanto ainda há pessoas boas no mundo e que ajudam as outras sem esperar nada em troca, e o quanto é importante nos despirmos de preconceitos e estarmos abertos a conhecer coisas e pessoas novas – temos muuuuito a ganhar com isso. Portanto, meu primeiro aviso: aconteceu comigo, mas não significa necessariamente que vai acontecer com você. E nem que não vai.

Feita a introdução, agora vamos começar do começo: o Seka tem (aliás, tinha até 24 de agosto, agora já deve ter mais) 99 reviews positivos no Couchsurfing, nenhum neutro, nenhum negativo. O Couchsurfing é uma comunidade online em que pessoas oferecem acomodação de graça a outras por um curto período de tempo. Existe já há muitos anos e você pode ser recebido para dormir no sofá da casa de alguém, num colchonete inflável ou até mesmo num quarto individual (o nome original do site significa surfistas de sofá). Todo isso é conversado antes para não haver surpresas. Geralmente são pessoas que não esperam nada em troca, que normalmente também viajam se hospedando desta maneira ou que apenas gostam de conhecer culturas diferentes. Você não é obrigado a dar nada em troca, nem a receber a pessoa de volta na sua casa, mas seja gentil, ajude em alguma atividade doméstica, busque se integrar no perfil da casa, não deixe bagunça espalhada (você não está num hotel!), deixe uma cartinha de agradecimento. Essa é uma experiência tão especial e agregadora que, quem começa, vicia.

Antes de enviar minha solicitação para ser recebida, li grande parte dos reviews sobre o Seka. “Coração de ouro”. “Pessoa acolhedora, que se preocupa em ajudar os outros”. “Rei do Couchsurfing”. “Ajuda sem esperar nada em troca”. “Ele e a namorada foram muito atenciosos”. “Me fez pensar mais sobre a vida com as conversas que tivemos”. Bom… Era tudo o que eu estava precisando naquele momento frágil, com um braço quebrado e sozinha num país diferente e novo para mim: pessoas que me acolhessem bem.

Sou mulher, viajando sozinha, estava “debilitada”, não conhecia mais ninguém lá. Então ler cada um dos reviews com muita atenção foi imprescindível (faça isso sempre). Senti confiança, mandei uma mensagem explicando que iria morar em Zagreb, pedindo teto por 2 ou 3 noites, e recebi a resposta em menos de dois minutos. “Oi Carla! Vai ser um prazer. Pode vir. Meu endereço é xx xx xx e meu celular é xx xx xx. Hoje vamos na casa de amigos, se você chegar a tempo, pode ir também”. Wow!  Coloquei o endereço no Maps e me mandei pra lá.

Eu estava acompanhada de um amigo que subiu comigo para conferir se estaria tudo ok. E o Seka nos recebeu com cerveja, nos apresentou o apt, mostrou o quarto onde eu dormiria (um quarto só pra mim!), me deu um mapa, entregou as chaves da casa e, juro, eu não esperava que estaria construindo ali uma amizade. No dia seguinte, quando acordei, ovos mexidos prontos pro café da manhã. Isso era uma quarta-feira e eu tinha a missão de encontrar logo um apt pra morar pelos próximos 5 meses em Zagreb.

À noite fui à casa dos amigos deles em Zapresic (a uns 15km de Zagreb) e no caminho o Seka me falou que antes ele morava lá, mas havia se mudado para Zagreb e que agora o apt antigo dele ficava vazio porque não estava conseguindo alugar. E emendou com um “você pode morar lá por um tempo, vamos lá que vou te mostrar”. Visitamos o apt. Perguntei quanto ele queria no aluguel. Ele respondeu “nada, está vazio há meses, ninguém quer alugar. Fica lá e quando sua mãe e seu irmão vierem, eles ficam lá também”. Apt mobiliado e bem localizado em Zapresic (pra quem conhece, seria tipo morar em Icaraí, em Niterói, e estudar no Rio, porém mais perto e sem trânsito. Ou seja, tipo a minha vida no Brasil, só que melhor…).

Na sexta-feira agradeci imensamente a recepção, disse que nunca teria como reconhecer tamanha receptividade e disse que procuraria um hostel até encontrar um lugar definitivo para morar – estava me sentindo abusando da boa vontade deles! Ao invés de um “Boa sorte!”, ouvi um “Relaxa. Hoje estamos indo pra casa de praia de um casal de amigos em Biograd. Queremos que você vá também!”. Oi!?!? É óbvio que eu disse que não, sem chance, não estava com cabeça para aquilo.

Bom… No final do dia pegamos a estrada. O Seka gravou CDs com músicas croatas e imprimiu as letras pra eu começar a aprender. E eles iam traduzindo pra mim pelo caminho. Lá conheci os amigos deles. Tomamos cerveja juntos, dançamos, rimos. E assim foi todo o fim de semana: íamos à praia cedo, almoçávamos juntos, jogávamos cartas, bebíamos vinho caseiro ou rakhia (bebida daqui e forrrrrte), à noite saíamos para comer, conversávamos, tirávamos dúvidas sobre nossas culturas – eu como convidada, pois em momento algum da viagem me deixaram pagar nada, nem almoço, nem cerveja, nada, e apenas afirmavam que isso é parte da cultura deles. No último dia eles me deram um ímã de Biograd como recordação do nosso fim de semana.

biograd croacia
Nossos almoços juntos em Biograd

 

Pôr do sol em Biograd
Pôr do sol em Biograd
Dança do ombrinho junto com a maneta aqui :D
Dança do ombrinho junto com a maneta aqui 😀

Voltei dessa viagem tão confiante que aceitei a proposta de morar de graça por uns dias no tal apt de Zapresic. A verdade é que não tenho nada a perder – nem mesmo dinheiro! E me mudei essa semana pra cá, já arrumei tudo do meu jeito, fiz faxina com um braço só, coloquei meus novos ímãs na geladeira, já recebi amigos pra uma cerveja, já fui apresentada à cidade, já errei o ponto de ônibus, me perdi e andei por uma hora pela cidade de madrugada e no frio (detalhe: aqui é um cubículo), já fiquei famosa como a brasileira que mora em Zapresic (sim, um cubículo), já cumprimento o povo local com Bok (Oi) e agradeço dizendo Hvala. Ah, e sabe os amigos que fiz em Biograd? São todos meus vizinhos aqui, e aaaaamam Zapresic. E como agradecimento por tudo, prometi fazer um jantar brasileiro para eles, e, claro, pro Seka e pra Tatjiana – com direito a caipirinha e brigadeiro.

Eu tenho certeza que daqui a uns 2 anos vou pensar em toda essa história e ter a impressão de que foi um sonho, de tão irreal e inesperado… Mas por enquanto escolhi viver tudo isso e aceitar as coisas boas que me estão acontecendo. Me tornei a melhor amiga sul americana do Seka (um privilégio em meio a 99 reviews internacionais, vai!) e ele meu melhor amigo croata. Por isso digo: tenham sempre uma mentalidade positiva. Acredito muito que nós atraímos o que pensamos, e mais ainda, atraímos gente com a mesma energia que a nossa – minha mãe diz que tenho o dom de me cercar de pessoas do bem. Sou obrigada a concordar, mesmo que isso aconteça tão intuitivamente. Fica aqui então meu último conselho: se abram para oportunidades e experiências novas. Quando saímos da nossa zona de conforto, muitas portas se abrem – para mim foi a porta do meu novo lar, o que será que está esperando por você!

Ps.: Seka, eu sei que você fala um pouco de espanhol e deve ter entendido boa parte do que escrevi aqui. Nunca vou ter como te agradecer por tudo. Obrigada por ser meu melhor amigo aqui. You are the real Mother Teresa! E sabe que tem um espaço especial no Brasil <3

Carla Boechat é jornalista, mestranda, curiosa que só, carioca da clara, inquieta e turista por vocação - e criação. Sempre com a mochila e um sorriso prontos, aposta que toda estrada pode esconder uma dica em potencial. E aqui é assim: se ela foi e gostou, virou post!

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