Um dia no carnaval de Oruro, o mais tradicional da Bolívia

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Nessa trip de mais de vinte dias pela Bolívia (depois de 45 dias morando no Deserto do Atacama), e durante o carnaval bombaaaaando no Brasil, eu e meu amigo decidimos ir passar um dia em Oruro. Se você não sabe, é lá o carnaval mais tradicional da Bolívia!

Nós estávamos em La Paz, e a ideia inicial era passar dois dias em Oruro. Mas a cidade estava tão cheia que não conseguimos hospedagem lá. A alternativa, então, foi fazer um bate-volta de La Paz mesmo pra conhecer ao menos um dia do carnaval (são 3 horas de ônibus). Como li que o carnaval lá dura 24h, eu queria chegar bem cedinho de manhã. Por isso dormimos cedo na noite anterior, ainda que nosso hostel estivesse em festa (estou hospedada no Wild Rovers Backpackers, que é incrível e muito animado!).

Às 4:30 acordamos, nos arrumamos e fomos direto pra rodoviária. Chegamos lá às 5:58 e tinha um ônibus saindo pra Oruro às 6:00. Corremos pra comprar, e a atendente disse que custaria 20 pesos (uns dez reais). Esse preço era a metade do que esperávamos pagar! Já pensei logo que ia ser um bus bem ruim por ser tão barato, mas na verdade era um busão de dois andares com assento semi-cama. Inacreditável! Nos sentimos as pessoas mais sortudas da terra.

Entramos no busão, tiramos até foto da nossa super poltrona reclinável, e eu logo dormi. Deu uns 20 minutos e o motorista parou numa rua de La Paz e eu só ouvia ele, parado do lado de fora, gritando “Orurooooo! Orurooooo!” numa tentativa de encher o bus. Pensei “bom, por 20 bolivianos, tá valendo né?! F*#@-se, vou dormir e daqui a pouco chegamos pro carnaval”.

Dormi e… Acordei com o ônibus parado no meio da estrada. Mais precisamente no meio de um lixão. Todo estava mundo gritando resmungando alguma coisa. “Que p*/#@ é essa, que que tá acontecendo?!”.  O ônibus tinha quebrado. Era só o que me faltava.. Já eram 7:30 da manhã e mal tínhamos saído de La Paz. Já era pra estarmos na metade do caminho pra Oruro.

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Reclamamos, pedimos nosso dinheiro de volta. Nada. Do luxo, literalmente, ao lixo. Não havia nem informação de a que horas chegaria o próximo ônibus pra nos buscar.

Desistimos e fomos pra beira da estrada. Começamos a “fazer dedo”, ou em bom português, a pedir carona. Parou um ônibus e nos mandou subir. Subimos e… Estava lotado. Nenhum assento vago. Nos restou ir em pé. Ainda faltavam três horas de viagem. Fazer o que?! Só queríamos chegar pro carnaval!

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Quando chegamos numa barreira de polícia, um homem desceu. Fiquei toda feliz já querendo sentar no lugar dele. Até que a mulher ao lado me disse “ele vai voltar”. Ok… “Felicidade de pobre dura pouco”. Ele voltou com uma sacola na mão. Sentou. Abriu a sacola. Sacou uma lata de cerveja. E bebeu.

Você tinha que ver minha cara e do Renato, meu amigo que estava comigo! A gente aguooou na cerveja dele! Mas… Fazer o que?! O jeito seria esperar chegar a Oruro, né…

Deu uns 5 minutos e não sei se o cara ficou com pena da gente em pé ali viajando… Só sei que ele olhou pra trás, falou com a gente em inglês e nos ofereceu uma cerveja. A gente arregalou o olho, gaguejou, tentou até negar por educação. Mas ele insistiu.

Fazer o que?! Aceitamos! E às 8:30 da manhã abrimos nossa primeira lata de cerveja! E logo tomamos a segunda. E a terceira. Ele tinha várias e fazia questão que a gente tomasse com ele. Queria que levássemos a melhor impressão possível do país dele. E estava conseguindo direitinho.

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Seguimos viagem bebendo juntos, contando histórias. Ele nos disse que estava indo a Oruro pra ver a namorada que sempre dança no baile de carnaval. Depois de tomar mais umas, contou que ia pedi-la em casamento, depois de quatro anos juntos. Não demorou muito pra que trocássemos telefone e ele nos convidasse pra ir no vilarejo onde ele vive, Quime, onde se pode pescar trucha e que fica num vale circundado por eucalipto. E já se ofereceu pra ser nosso guia de turismo no dia que quiséssemos!

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Na paradinha seguinte que o motorista do bus fez, o Renato desceu correndo pra comprar mais cerveja e retribuir a gentileza – e quase ficou pra trás porque o ônibus deu partida! Seguimos bebendo, bebendo, rindo, contando história, tirando foto. E nisso nosso novo amigo boliviano ficou muito bêbado!

Quando chegamos a Oruro, ele fez questão de pagar nosso taxi até a festa de rua, comprou souvenir pra mim, comprou um moooonte de cerveja pra gente. Se esforçando ao máximo pra ser muito receptivo. Mas só que ele ficou muuuuito bêbado! E daqueles bêbados chatos, sabe?!

Que situação! Ainda forçamos pra ficar mais um pouco ali com ele, mas não dava. Ele não parava de comprar muita cerveja, derrubava cerveja no chão, falava sem parar. Quando deu a primeira oportunidade, a gente se despediu dele, agradeceu infinitamente, e foi curtir o carnaval por conta própria.

O carnaval de Oruro consiste basicamente em grupos que vão desfilando nas ruas e as pessoas pagam cadeiras nas calçadas para assistir.

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Nós, claaaaaro, não queríamos ficar sentados nas cadeiras apenas vendo a festa. Queríamos algo tipo carnaval do Rio: curtição na rua, pular com eles, dançar também.

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E foi o que fizemos. Éramos os únicos a invadir os grupos e dançar junto com a galera fantasiada. Pensa que alguém ficou puto? Que nada! Eles se amarraram e faziam mil poses para as fotos e vídeos! Estava na cara que a gente era gringo, e parecia que pra eles era uma honra ter a gente bagunçando ali com eles.

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Claaaaaro que esse é um carnaval que nem dá pra comparar com o do Rio, por exemplo. É mais uma manifestação cultural, e todo mundo vai pra rua, bebe, come, dança, faz guerra de espuma (veja meu estado na foto abaixo!). Se você está a fim de ir pra lá, esqueça o carnaval brasileiro, abaixe suas expectativas e se prepare pra se divertir! Parece nosso desfile de escolas de samba, porém em bem menor proporção. Nome de algumas das principais danças: morenada, diablada, capotares, wacawaca, llamerada…

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De início, eu pensei que seria perigoso (um amigo que já foi teve a câmera furtada). Mas pra quem já passou vários carnavais na confusão do Rio, de Minas e de Salvador, achei o de lá muuuuuito tranquilo com relação à segurança. Claro que é bom estar ligado, mas não é nada que você deva se preocupar tanto.

À noite, depois de curtir um dia inteiro por lá, pegamos um busão e voltamos tranquilos para La Paz. Ou seja, esse bate-volta é bem tranquilo de fazer. Cansativo sim, mas totalmente possível (o bus da volta custou os já espetados 40 bolivianos).

O carnaval de Oruro é o maior evento cultural periódico da Bolívia. Foi declarado um Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade em 2001 pela UNESCO.

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Do Wikipedia:

Celebrado em Oruro, a capital folclórica da Bolívia, o carnaval marca o festival Ito, dos Urus. Sua cerimônia segue os costumes andinos tradicionais, baseados na invocação de Pacha Mama e do Tio Supay, sincretizados, respectivamente, nas figuras da Virgem Maria e o Demônio. A cerimônia Ito nativa, foi interrompida em meados do século XVII, pelos espanhóis (então comandantes das terras do Alto Peru), o que não impediu os Urus de continuar observando o seu festival, mascarado sob a forma de comemoração cristã. Eles comemoram em nome da Virgem Maria que misteriosamente apareceu em uma das minas de prata mais ricas de oruro.E é por isso que se chama carnaval de oruro.Sao mais de 28000 dancarinos vestidos com diversas fantasias,percorrem mais de 4 quilometros ate chegaram a uma igreja chamada Sanctuaria del Socavon,onde a festa termina.

Carla Boechat é jornalista, mestranda, curiosa que só, carioca da clara, inquieta e turista por vocação - e criação. Sempre com a mochila e um sorriso prontos, aposta que toda estrada pode esconder uma dica em potencial. E aqui é assim: se ela foi e gostou, virou post!