Em mais um relato para a série Diários da Pandemia, hoje vamos entender melhor como anda a realidade do coronavírus no México com a Paola. Nossa convidada de hoje também escreve sobre suas viagens no blog Curta o Caminho. Aliás, vale muito a pena ler o artigo onde ela faz uma reflexão sobre como é a quarentena de quem vive viajando.

O Brasil e o México são os dois países mais populosos da América Latina. Mas as coincidências entre os dois países não param por aí. Eles também lideram o ranking de infectados e mortos por coronavírus nessa região. E suscitaram até mesmo um artigo da Exame sobre a postura de ambos governos de negação do vírus e desprezo às recomendações da OMS e dos Ministérios de Saúde dos próprios países.

Apesar desses dados preocupantes, a história de hoje traz um final feliz. Depois de mais de três meses isolada, a Paola conseguiu um voo de repatriação ao Brasil e agora pode estar perto da família.

Quem é a Paola

Meu nome é Paola, tenho 30 anos, sou jornalista e, no começo de 2019, troquei a baia do escritório pelo mundo. A viagem sem data de volta começou pela América do Sul, onde conheci o Uruguai, Argentina, Chile, Peru e Colômbia, sempre trabalhando como voluntária em troca de hospedagem e alimentação pelo Workaway e Worldpackers.

Acabei voltando para o Brasil de forma tão inusitada quanto inesquecível: numa travessia de barco de Tabatinga até Manaus durante 4 dias pelo rio Amazonas. Como já estava no Brasil, resolvi dar um pulo em São Paulo e dar um “oi” para a família. Mas após um mês, caí na estrada de novo.

O destino seguinte foram os Estados Unidos, onde viajei de carona, visitei amigos e família e passei uma temporada em New Orleans (como voluntária também). Saí de lá antes do planejado e fui para o México, sem imaginar que uma crise global iria prorrogar minha estadia por tempo indeterminado e acabar com meus planos de conhecer Cuba e Guatemala.

Bacalar, um refúgio perfeito para o isolamento no México

Em meados de Janeiro, Cancún foi a primeira parada e onde o coronavírus começou a virar assunto, mesmo subestimado como uma gripe que não sairia da Ásia. Curiosamente, havia uma chinesa no hostel que, mesmo sem falar com ninguém, recebeu alguns olhares desconfiados.

A muvuca turística e festas descontroladas me obrigaram a sair de Cancún antes do previsto, ignorar o planejamento, que incluía Cozumel e Tulum, e ouvir apenas minha intuição dizendo: “Esqueça a logística e vá direto para Bacalar”, que também estava na rota, mas não naquele momento.

Seja por obra do acaso ou intervenção divina, fui parar num pedaço de paraíso com uma lagoa de água azul turquesa, a 10 quilômetros do único mercado da cidade. Minha quarentena começou muito antes da declaração oficial de Pandemia e até meados de Março, a doença que já avançava pela Europa ainda parecia uma realidade distante do México. Mas não por muito tempo.

México

A quarentena no México

O México declarou quarentena no dia 20 de março. A partir daí, vi os turistas desaparecendo aos poucos, outros voluntários voltando para seus países e o staff do Eco Hotel sendo dispensado. Até que fiquei apenas na companhia dos pedreiros, já que o momento era propício para reformas.

Apesar de fechar as portas, o dono me tranquilizou: “Você pode ficar até quando precisar”. E ainda recebeu meu amigo Luca, recém chegado da Itália (depois de sua quarentena em Mérida), que me ajudou a não surtar na solidão. O jeito foi ajudar a pintar paredes e no que mais fosse preciso.

Além dos comércios fechados e medidas de isolamento, o estado de Quintana Roo incluiu patrulha policial nas estradas que só permitia a passagem de veículos oficiais ou carros com apenas uma pessoa. De brinde, também decretaram Lei Seca, cuja justificativa era o histórico de alcoolismo dos mexicanos, além de violência doméstica.

A sensação enlouquecedora de não poder voltar

Tive a melhor quarentena que poderia imaginar. Mas chegou uma hora que a falta de liberdade transformou o paraíso em prisão e começou a afetar os ânimos. E quando me dei conta de que a pandemia demoraria mais do que eu imaginava, resolvi voltar ao Brasil, mas já era tarde. Não me inscrevi para o primeiro voo de repatriação patrocinado pelo Itamaraty em abril achando que viria no voo comercial marcado para início de maio, que foi cancelado uma semana antes.

Desde então, remarquei a passagem duas vezes, uma para junho, outra para julho, ambas canceladas. Um segundo voo humanitário do governo deu uma ponta de esperança, mas fiquei de fora devido à quantidade de brasileiros em situação vulnerável, vivendo em abrigos de imigrantes e sem dinheiro.

Pelo grupo de WhatsApp com funcionários do consulado e outros brasileiros que, assim como eu, permaneciam no México, vi que haveria o terceiro voo de repatriação, resultado de muito esforço envolvendo pressão política e reportagens em alguns jornais relatando o drama de famílias que precisavam voltar para casa.

Coronavírus no México

A surpresa em ser contemplada para o voo

Crente de que eu ficaria de fora mais uma vez, estava até cogitando um novo destino no México, já que voos domésticos voltaram a operar e as estradas estavam abertas. Mas fui surpreendida com um e-mail do consulado dizendo que eu estava contemplada no voo.

De lá, tive apenas um dia para voar até a Cidade do México (a 1400km de Bacalar), arrumar as coisas e partir. Assim, sem preparo psicológico ou muita cerimônia de despedida. Fiquei feliz, mas deixar aquele lugar e as pessoas que praticamente me adotaram doeu mais que bater o dedinho na quina.

Durante um dia que passei na Cidade do México, epicentro do vírus no país, notei que o comércio segue fechado, apesar de que nas regiões centrais, os comerciantes seguem aglomerados em frente às suas lojas, mesmo com as portas fechadas, alucinados para vender.

Como foi o voo de repatriação

A equipe do Itamaraty, entre funcionários e voluntários, merece uma salva de palmas pelo empenho e dedicação em todas as etapas do processo de repatriação. Desde as negociações até o intermédio no processo de regularização dos vistos vencidos.

O voo, operado pela Copa Airlines, veio lotado, então todo o cuidado com higienização foi pouco. Recebemos um kit com máscara e luva, tanto do Itamaraty quanto da companhia aérea. A aeronave era simples, sem entretenimento, e também não tivemos serviço de bordo. Mas a felicidade em voltar compensou muito, além do que não pagamos nada.

A sensação de ser repatriada foi única e inédita, algo entre impotência e gratidão, apesar de sentir pelos que ficaram. Claro que esse foi o pior momento para voltar ao Brasil, mas estar “perto” da família é um pouco mais reconfortante.

Medidas de segurança na chegada ao Brasil

O protocolo de segurança que mencionei acima foi apenas na saída do México. Lá mediram a minha temperatura tanto na entrada do aeroporto quanto na sala de embarque. Assinei um termo de saúde dizendo onde estive nos últimos 14 dias, se tive contato com alguém com Covid-19 e que não apresentava qualquer sintoma suspeito.

Mas na chegada em São Paulo não teve nada disso. Achei até estranho, mas não mediram a temperatura, nem preenchi nenhum documento sobre quarentena.

Pelos próximos 14 dias, minha vida estará resumida entre quarto, banheiro e conversas pela janela. Ao menos, encontrar um pote de paçoquinha na minha cômoda foi a manifestação de amor mais segura no momento e a prova de que posso rodar o mundo, mas esse sempre vai ser meu lugar favorito.

Coronavírus no México hoje

Hoje, dia 03/07, o México tem 238.511 pessoas infectadas, das quais 142.593 se recuperaram, e 29.189 mortos pelo Covid-19. O país, atrás apenas do Brasil, lidera o ranking do número de casos e mortos pelo vírus. Lá, eles também enfrentam subnotificação, a falta de testes e discussões entre autoridades acerca de políticas públicas e flexibilização da quarentena, apesar da curva ascendente.

Não bastando isso, essa semana saiu uma reportagem no Money Times com dados de que o México tem a maior taxa de positividade de Covid-19 do mundo. De acordo com o artigo, 5% de taxa de positividade é o limite para reabrir a economia com segurança, 10% é preocupante, enquanto 20% é chocante. No México, essa taxa é de 50%. Quando as taxas são tão altas, isso significa que os governos não têm ideia da gravidade do surto dentro de suas fronteiras. Não é possível comparar essa taxa à do Brasil, porque aqui o governo não divulga esses dados.

Entenda a proposta da série de artigos Diários da Pandemia

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