Às vezes nem precisamos ir tão longe para ter relatos comoventes sobre a luta mundial contra o coronavírus. Faz alguns meses que uma grande amiga vem compartilhando o seu dia-a-dia no Covidinho, ala do hospital destinada a atender apenas pacientes com Covid-19 ou com suspeita do vírus no interior do Pará. A cidade onde ela mora tem menos de 200.000 mil habitantes, mas já acumula mais de 14.000 casos confirmados da doença e mais de 140 mortes.

A Saúde por lá entrou em colapso, como infelizmente tem acontecido em muitos lugares no Brasil. Faltaram vagas na UTI, em alguns dias havia leitos até na enfermaria e vez ou outra os próprios médicos tinham que correr atrás de balão de oxigênio pros pacientes. Me emocionou a reflexão que ela trouxe: é uma das coisas mais tristes, porque a pessoa morre faltando uma coisa que na verdade deveria ser de graça, que é o ar.

O relato de hoje é da Dra. Gabriela Meira – mas, pra mim, ela vai ser sempre a Gabizinha.

Quem é a Gabi

Meu nome é Gabriela Meira Costa Issa, sou especialista em Medicina de Família e Comunidade e servidora pública (trabalho na prefeitura). Atuo também na área da Medicina do Estilo de Vida, com curso em Harvard. Sou mineira, atualmente morando em Parauapebas, Pará, há 6 anos .

Convocação inesperada para a linha de frente

Há 2 meses essa porta se abriu para mim, contra a minha vontade. Mal sabia o quanto essa experiência mudaria minha vida. Assumi os plantões no “Covidinho” em Maio, e desde então minha casa passou a ser dividida, para ficar longe da minha família e evitar uma possível transmissão do vírus a eles.

Mesmo assim, meu marido acordava cedo para me ajudar a fazer o café ou esperava até mais tarde, quando o plantão era noturno. Todos os dias ele me dizia o quanto acreditava em mim, o quanto eu era capaz, um incentivo que foi essencial para mim naquele momento. Manter a distância do meu filho sem dúvidas foi a pior parte. Ele corria para me abraçar e eu precisava interrompê-lo, até chegar num ponto em que ele mesmo dizia que não podia encostar em mim: “mamãe estava cuidando de quem teve Covid”.

Fechei a minha clínica para segurança dos meus pacientes e não fiz nem atendimento online, tamanha a sobrecarga emocional. A Medicina do Estilo de Vida é uma das minhas maiores paixões e fonte de renda e essa decisão não foi fácil, mas necessária. Deixei outros negócios em segundo plano e, em resumo, me dediquei 100% ao desafio que a vida me proporcionou.

Rotina desgastante

Logo no primeiro dia, uma segunda-feira, precisei assumir o plantão sozinha, depois de 8 anos sem trabalhar com urgência e emergência. O outro colega desistiu. Nunca atendi tanta gente na minha vida! Os testes positivos de Covid-19, que nos primeiros dias eram raros, se tornaram comuns. Nunca imaginei trabalhar em uma situação tão insalubre! Foram vários plantões noturnos totalmente sem descanso, vendo profissionais de saúde lutando por bolsa de oxigênio, por vaga na UTI. Vi pessoas no final da vida se despedindo na solidão da doença. Vi faltar o ar dos pacientes e o meu também, por causa do EPI (equipamento de proteção individual).

Usar o EPI, aliás, também foi marcante! Por si só, o equipamento de segurança já traz o medo de algo que é misterioso. A máscara incomoda, a roupa é quente e muitas vezes abri mão de comer ou ir ao banheiro para não desparamentar. Por mais cuidado que tivesse, não contrair o vírus era uma missão quase impossível.

Dividir, outra vez, me ajudou a passar por tudo de uma forma mais leve e receber tanto carinho, orações e mensagens me trouxe uma sensação imensa de gratidão!

Continuo na batalha contra o vírus e espero ansiosa a nossa vitória nesta guerra. Mas a lição que aprendi é que tudo na vida tem um propósito. Sem dúvidas não sou mais a mesma e sou imensamente grata por essa experiência. Olho para tudo o que passei e hoje vejo se cumprir de uma forma muito especial o propósito que Deus tem para mim.

Compartilhar para aliviar

Chegando em casa dos plantões, era hora de responder às dúvidas de conhecidos e desconhecidos pela internet. 10, 20, 30 mensagens todos os dias e isso me fez e faz bem, me deu forças em certo ponto. E isso me fez querer compartilhar a rotina, para que as pessoas entendessem mais sobre a doença e sobre o que os profissionais de Saúde estavam vivendo.

Valorizar o hoje

Passado o susto inicial da convocação inesperada, resolvi focar no que a experiência podia me ensinar. Trabalhei com pessoas maravilhosas e profissionais competentes, que faziam o plantão de 12hs virar de 20hs para conseguir fazer tudo o que pudessem por seus pacientes. Médicos de todas as especialidades, recém formados, todos se tornando plantonistas e intensivistas. Dia e noite, vi famílias rezando por seus entes queridos, ouvi diversas experiências dos mais antigos e suas receitas caseiras, vi pacientes se recuperando e só depois de eu mesma pegar o Covid-19 (sim, eu tive o vírus) e me recuperar, pude ter um pouco de tranquilidade em conviver com meu marido e meu filho.

E nunca vivi momentos tão felizes com eles como estou vivendo agora! Talvez porque uma das coisas que o vírus me ensinou foi valorizar as pessoas que realmente importam e que estamos nessa vida para sermos felizes aqui e agora, seja qual for a situação que estejamos passando.

A nova rotina

Após o fim da convocação, voltei a atender atenção básica, mas ainda voltado para atendimento de Covid-19. Dei mais alguns plantões no Covidinho e em outro lugar completamente diferente, desta vez por minha vontade. Isto deixou meu coração feliz e em paz!

Meus pais foram essenciais. durante essa experiência, me orientando, ajudando, me fortalecendo. Diariamente , mesmo de longe.

Coronavírus no Pará

Hoje, dia 15/07, o Pará tem 133.039 casos confirmados e 5.385 mortes por Covid-19. Segundo dados da Secretaria de Saúde Pública do Pará, o estado computa a maior redução no número de mortes pelo novo coronavírus no Brasil, chegando a 45% de diminuição numa janela de duas semanas.

Em Parauapebas, onde a Gabi trabalha, são 7.158 pessoas recuperadas da Covid-19 dentre os 14.489 casos confirmados do vírus. A cidade está entre as 5 em estágio mais acelerado da pandemia no país segundo levantamento da Folha de São Paulo divulgado essa semana.

Entenda a proposta da série de artigos Diários da Pandemia

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