De viajante solo a viagem de casal – o que mudou depois que comecei a namorar

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Faz quase dois anos que virei “nômade”. Sem “casa”, apenas com minha mochila nas costas e muita disposição pra viver na estrada. E faz mais um pouco que isso que me apaixonei por viajar sozinha. Tá, eu até fiz dois intercâmbios sozinha quando mais nova, mas era aquele clima de chegar no curso, fazer mil amigos e não estar sozinho mais. Não é esse tipo de viagem solo que eu estou falando. É algo mais ousado. É tipo quebrar uma barreira de que você precisa de companhia para qualquer coisa. É você ter a plena consciência de que vai chegar pra jantar e pedir mesa pra apenas uma pessoa. E isso não te incomodar. É saber que vai acordar e decidir por você mesma pra onde vai, a que horas, quanto tempo vai ficar lá. E achar isso maravilhoso. É viajar sozinho o tempo todo, se quiser. É conhecer gente pelo caminho e ganhar companhia no destino novo, se quiser também. Enfim, é ser 100% dono do seu tempo e fazer só as suas vontades.

Eu me apaixonei por isso!

Comecei a viajar sozinha no Brasil mesmo (como a primeira vez que me hospedei sozinha num hostel, em São Paulo, e descobri a existência dos quartos compartilhados apenas para mulheres). Me lembro até hoje da sensação de percorrer a Vila Madalena sozinha, entrando nos cafés, parando para comer alguma coisa, andando pelas ruas sem compromisso. So-zi-nha. Eu achei aquilo incrível. Por necessidade, também fui a algumas press trips sozinha (são viagens a convite para conhecer determinado destino). Minha primeira press trip foi para Foz do Iguaçu. Meu tempo seria curto, e cheguei lá louca pra conhecer logo as cataratas. Eu era a única que queria ir pra lá naquela tarde fria e chuvosa. Então peguei um ônibus em frente ao meu hotel e fui. Nunca vou esquecer da minha felicidade andando pelo parque e me admirando com aquelas quedas d´água. Eu me senti tão independente ali, tão forte, tão capaz de qualquer coisa.

Um tempo depois ousei minha primeira viagem sozinha para o exterior, quando passei dez dias na Espanha e Holanda, no início de 2015. Eu até tentei levar minha mãe, mas ela não podia ir comigo. Lembro que vi a “promoção” na Decolar.com (na verdade, era um erro da KLM) e liguei na mesma hora pra ela. “Mãe, tá MUITO barato. Vamos comigo! Mas tem que decidir agora, porque com esse preço as passagens vão acabar rápido”. Ela disse que não tinha como resolver assim, de uma hora pra outra. Desliguei o telefone e comprei a passagem. Só pra mim. Pela primeira vez na Europa.

Eu estava dura de grana, era só uma estudante de Mestrado recebendo uma bolsa irrisória do governo. Planejei cada detalhe da minha viagem antes de ir, pesquisei os dias em que a entrada nos museus eram gratuitas, vi restaurantes legais com bom preço, estudei cada detalhe do metrô de Madri. E fui.

Pronto. Foi uma atitude sem volta, eu nem fazia ideia do quanto ainda ia me aventurar por aí sozinha depois dessa viagem. Poucos meses depois me mudei para a Croácia, onde morei por 4 meses – sozinha. E num período de seis meses conheci quase 20 países da Europa. Fui sozinha para a Romênia,  Eslovênia, Sérvia, Áustria, Alemanha, Portugal. Com mais experiência, arrisquei conhecer Dubai sozinha. Entre muitas viagens solo pelo Brasil (Bonito, Londrina, Curitiba, Ilhabela, Caminho da Luz, etc), chegou a vez de dar um salto maior: ir sozinha para a África!

Conheci a África do Sul e sua maravilhosa Garden Route (um paraíso pros mochileiros!). Fui pra Suazilândia, e quando cheguei lá descobri que peguei a mochila errada no aeroporto (tem um post hilário aqui no blog contando essa história). Depois me juntei a uma amiga, que também viaja muito sozinha, e atravessamos Botsuana de ponta a ponta num caminhão, fomos na Zâmbia, cruzamos o Zimbábue até mesmo de carona.

Definitivamente eu tinha encontrado meu estilo de viajar. E não vou negar que, com essa vida de quem está sempre se despedindo e indo de um lugar pro outro, era muito difícil levar um relacionamento com alguém pra frente. Vamos combinar, não é todo mundo que vive na estrada e sem planos. A grande maioria das pessoas tem emprego fixo e só viaja nas férias. E eu? Eu sempre fui aquela que estava planejando a próxima viagem, algumas vezes sem saber quando ia voltar. Perdi as contas de quantas vezes me apaixonei e precisei interromper isso para continuar viajando. Ouvi várias vezes da família e de amigos que, ou eu continuaria solteira, ou teria que parar de viajar para “conseguir um namorado”. Só que eu estava tããão bem solteira, que eu só rebatia “não, não vou mudar meu estilo de vida, se eu namorar alguém, ele que vai viver igual a mim”.

O que eu não esperava é que eu iria namorar justo um dos meus grandes amigos, e que tinha começado, veja só, a viver exatamente igual a mim: na estrada, sem lugar fixo, só com uma mochila.

A gente se encontrou no Deserto do Atacama, onde eu fui morar no final do ano passado pra levantar uma graninha. Ele já estava morando lá e trabalhando, e foi quem me deu a dica de ir trampar no deserto. Eu fui com uma amiga, praticamente sem grana, e até brigadeiro a gente vendeu. Logo depois eu comecei a trabalhar numa das agências mais antigas de San Pedro do Atacama vendendo tours, e o contato entre eu e o Renato, até então meu amigo, era diário. Íamos almoçar juntos, tomar cerveja, andar de bike à noite, barzinho, festinha. Às vezes só a gente, às vezes com nossos amigos.

Um dia rolou. E em menos de uma semana saí do hostel em que eu estava, e fui morar no “cafofo” dele. Com mais uns 20 dias planejamos sair do deserto e viajar juntos pra Bolívia, e de lá visitar a família no Brasil antes de continuar viajando. Foi ainda no deserto que compramos nossa passagem pra seguir viagem juntos após a passagem pelo Rio de Janeiro. Quando nos demos conta, estávamos fazendo planos para o ano inteiro.

Bom… Aí o caminho mais natural foi oficializar que estávamos juntos. No único mês que separamos pra visitar a família, resolvemos contar a novidade pros nossos amigos em comum (que são muitos). Nesse meio tempo, o Renato também foi conhecer minha família no interiorrrrr, lá em Itaperuna. Eu já conhecia o pai do Renato, então fizemos um churrasco na casa dele de despedida, como nos tempos em que eu ainda era só amiga.

E embarcamos pra mais uma viagem. De dois viajantes solo, viramos o companheiro um do outro, juntamos as mochilas, os planos, os sonhos e estamos vivendo o que poucos têm a oportunidade de viver. Passamos perrengue sim, às vezes a grana é bem curta, nem sempre sai tudo como planejando. Mas estamos conhecendo o mundo juntos, sem muitos planos de viagem, sem data certa pra voltar pra casa.

Debaixo de chuva em Machu Picchu…

Temos uma rotina que é muito diferente da maioria dos casais. Aliás, o que menos temos é rotina. A gente literalmente não sabe onde vai estar na semana que vem – não é exagero, não sabemos mesmo. A gente gosta de viajar com calma, sentir os lugares por onde passamos, e não apenas cortar pontos turísticos de uma listinha. Agora, no momento em que escrevo este post, estamos há 18 dias em Cusco e região. E decidindo se seguimos viagem para o Equador, se ficamos mais tempo no Peru ou se voltamos pro Atacama pra trabalhar mais um pouco – está chegando a alta temporada lá, e é um período ótimo pra levantar uma grana.

É que, além de tudo, descobrimos que temos um sonho em comum: comprar uma kombi e transformá-la na nossa casa para viajar o mundo. Olha que evolução, ao invés de ter apenas uma mochila, eu teria uma kombi pra chamar de casa ehehehe.. Daí surgiu a ideia de trabalharmos mais um pouco no Atacama pra juntar dinheiro juntos e realizar mais esse sonho. Quem sabe?

E em meio a tudo isso, ainda arrumamos tempo pra começar nosso canal no YouTube, mostrando o dia-a-dia de um casal nômade, que agora está na América do Sul, mas amanhã não faz ideia de onde pode estar. Ainda está a passos lentos, pois nós mesmos estamos nos virando pra aprender a editar tudo – e, olha, não é fácil não, viu! Toma muuuuito tempo! Não é um canal de dicas de viagem, mas de estilo de vida. Vou continuar montando roteiros completos e dicas de viagem aqui pro blog (que é minha vida e o que mais amo fazer). E no Youtube vamos mostrar onde estamos, curiosidades dos lugares por onde passamos, como é ser um nômade e não ter casa, como é viver com tudo dentro de uma mochila (ou de uma kombi!). Como é ser tão livre e viver nossos melhores desejos.

Vai ser um prazer ter vocês acompanhando a gente neste novo projeto que é o canal no Youtube, que se chama TE CONTO PELA ESTRADA! Sim, a ideia foi que o nome do canal tivesse sintonia com o nome do blog. Aqui eu conto o que eu gosto, lá a gente conta o que acontece pela estrada. Estamos muito empolgados e numa sintonia muito grande pra trazer vocês mais pra perto da nossa (falta de) rotina. Estamos vivendo um sonho, um sonho possível!, que é conhecer o mundo juntos. E queremos compartilhar tudo isso com vocês.

Olha aí nosso primeiro vídeo, ainda se arriscando nos programas de edição:

No último live (transmissão ao vivo) que fiz no Facebook, teve uma pessoa que me perguntou o que mudou depois que comecei a viajar acompanhada. Me lembro que a resposta saiu muito natural na hora. Eu estou viajando não apenas com meu namorado, mas com uma pessoa que é, já há algum tempo, um dos meus melhores amigos. A gente já tinha total intimidade antes, já se conhecia muito bem, era bem parecido. E hoje temos o mesmo estilo de vida. E compartilhamos os mesmos planos de vida.

Eu me sentia a mulher mais independente do mundo viajando sozinha. Hoje eu me sinto a mais sortuda por estar com uma pessoa que apoia e quer viver os mesmos sonhos que eu, comigo. Que me dá todo o apoio pra continuar sendo independente, mas está ao meu lado na hora em que eu precisar. É claro que qualquer convivência tem seus momentos de stress, mas até pra isso a gente tem um bom jogo de cintura (senão viver junto vira uma batalha diária!).

O que eu mais estou curtindo em viajar de casal, é que estou com uma pessoa que topa o perrengue que for, se empolga comigo quando conhecemos algo novo, que é meu parceiro de cerveja, de night boa ou ruim, de miojo com ovo, de jantar num restaurante maneiro, de hostel barato, de hotel 5 estrelas, de passeio de barco na chuva, de trem de luxo, de horas editando vídeo, de uma manhã inteira embaixo do edredom, de dormir antes de acabar o filme do Netflix, de viagens de ônibus que duram mais de 20 horas, de caminhadas onde a perna fraqueja, mas a gente se dá a mão e chega ao final, de viagens sem planos e sem data de retorno. De uma vida simples, mas do jeito que a gente quer. Sabe aquela frase “Gosto de gente que ‘vamos?’, ‘vamos!'”. Eu já era essa pessoa, e encontrei alguém que também é assim.

Eu e Renato amávamos viajar sozinhos, então compartilhar a estrada juntos por tanto tempo está sendo uma experiência bem diferente. Mas também a melhor maneira de nos conhecermos ainda melhor.

Nada aqui no blog vai mudar, mas não deixa de ser uma nova fase, onde minhas viagens solo não serão tãããão frequentes mais. E eu queria muito compartilhar com vocês, que já acompanham meus perrengues por aí há tanto tempo. E agora vão ver perrengues em dose dupla pelo mundo Hehehe

Nos desejem sorte nessa nova estrada! <3 E vem com a gente… que eu TE CONTO PELA ESTRADA 😉

Carla Boechat é jornalista, mestranda, curiosa que só, carioca da clara, inquieta e turista por vocação - e criação. Sempre com a mochila e um sorriso prontos, aposta que toda estrada pode esconder uma dica em potencial. E aqui é assim: se ela foi e gostou, virou post!

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