Deserto florido no Atacama, Chile – dicas de como conhecer esse milagre da natureza

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Foi MUITA sorte a minha. Estar morando uma temporada em San Pedro do Atacama justo quando o deserto floresceu, num fenômeno raro que costuma acontecer a cada 5 ou 10 anos, e numa intensidade que dizem ser a maior das últimas décadas. O detalhe é que, como a grande maioria das pessoas, eu achava que esse milagre estava pertinho de mim, e que num bate-volta de um dia eu poderia ir até lá.

Mas não. O famoso deserto florido não fica no Deserto do Atacama que nós, brasileiros, tanto conhecemos, ali pertinho da Bolívia e da Argentina, tendo San Pedro de Atacama como base. Fica a pelo menos 600km dali, e eu encarei essa distância pra passar um dia naquela imensidão de flores e depois contar tudo aqui para vocês.

As sementes passam anos enterradas no solo seco do deserto, e germinam nas escassas temporadas de chuvas. Esse ano, o “desierto florido” deve ter sido provocado pelo El Niño de 2016, que alterou o regime de chuvas na região. Em maio, fortes chuvas atingiram o deserto, principalmente na província de Huasco.

Não é todos os anos que o deserto do Chile floresce. Isso depende exclusivamente das condições climáticas, como a chuva. Como eu comentei mais acima, antes, as flores apareciam com intervalos longos, de muitos anos. Mas nos últimos tempos se tornou recorrente. A última grande florada havia sido observada em 2015, há apenas dois anos. Antes, em 1997, duas décadas atrás.

A previsão é que este ano, 2017, o deserto permaneça florido pelo menos até a primeira quinzena de Setembro. Algumas pessoas apostam que até Outubro ainda seja possível observar algumas partes com flores.

As variedades de flores são muitas. Glórias-da-manhã, patas de guanacoterciopelos, borboletinhas, huillessuspiros de campo, astromélias, azulilloscoronas de frailemalvillasañañucas. Junto com a flora aparece também a fauna, como borboletas, abelhas e vaquitas del desierto (um tipo de besouro). Vi tudo isso enquanto estive lá.

Onde fica o Deserto Florido do Chile?

O território chileno se divide em regiões, que se dividem em províncias, que se dividem em comunas (equivalentes aos municípios brasileiros). O país consiste em 15 regiões, 54 províncias e 346 comunas.

Uma dessas regiões, a terceira, é chamada de Atacama e, pasmem, o Deserto do Atacama mais conhecido pelos brasileiros, tendo como base San Pedro de Atacama, não fica ali, mas sim na segunda região, chamada Antofagasta. Veja no mapinha abaixo para entender melhor (repare que San Pedro de Atacama não consta na região de Atacama, está acima, na região de Antofagasta, que está cortada neste mapa):

Portanto, essa é a maior confusão feita pelos turistas. Não dá para visitar o deserto florido enquanto você estiver em San Pedro de Atacama. É preciso se deslocar até as proximidades de Copiapó para ver o fenômeno, percorrendo uns 700km. O Deserto do Atacama é MUITO maior do que eu imaginava!

Aliás, Copiapó é boa base para quem quer visitar as regiões floridas. Não somente porque tem aeroporto e boa conexão para chegar de ônibus vindo de diversos lugares do Chile, como por ser uma cidade maior e com mais opções de agências e hospedagens. No entanto, achei uma cidade feinha, sem muitos atrativos. Outra base pode ser Caldera, que fica mais ou menos uma hora distante de Copiapó. É um lugar menor, mais charmoso e também com opções de tours saindo dali para visitar o deserto florido.

Eu fui para Copiapó de ônibus desde San Pedro de Atacama. A viagem leva dez horas e custou 20.100 pesos (cerca de 30 dólares) em poltrona semi cama da empresa TurBus (ótima companhia de ônibus chilena). Foram oferecidos um biscoitinho com suco, e mantas para se cobrir. Saindo de Santiago, são mais ou menos 11 horas de viagem e a passagem custa a partir de 21.800 pesos (cerca de 33 dólares). Além da TurBus, há outras companhias que fazem o trajeto. Sugiro pesquisar no site Rome2Rio.

Onde se hospedar?

Em Copiapó eu fiquei no Hostal El Cactus. Achei super fofo, novinho, bem decorado, econômico, bem localizado. Eu e minha amiga dividimos um quarto privativo com banheiro compartilhado a 20.000 pesos por noite (cerca de 30 dólares). Tinha uma cozinha compartilhada simples, com micro-ondas, água filtrada, café e chá à vontade pros hóspedes, geladeira, utensílios (não tinha fogão). Só não curti muito o chuveiro, pois a pressão diminuía muito quando colocávamos na água quente.

Mas, quando eu voltar, certamente ficarei em uma cidade menor. Estando de carro, dá pra se hospedar em Bahía Inglesa, que fica a uma horinha de Copiapó e é um balneário super charmoso. Fica a dica 😉

Deserto Florido: quais lugares visitar?

Essa é uma dúvida bem comum, em especial porque, para percorrer toda a região que costuma estar florida, são mais de 300km, indo mais ou menos de Huasco a Chanaral, onde fica o Parque Pan de Azucar. Nós demos preferência ao Parque Llanos de Challe e à região de Totoral, que estavam mais floridas quando estivemos lá e ficavam mais próximos a Copiapó. E para isso levamos um dia inteiro na estrada, indo de um lado para o outro!

Nós fizemos mais ou menos um círculo, começando pelo borde costero e retornando pela Ruta 5. Aqui embaixo vou falar melhor sobre os lugares por onde passamos.

Deserto florido: ir por conta própria ou contratar agência?

Minha ideia inicial era alugar um carro para conhecer tudo por conta própria. Mas minha amiga perdeu a carteira de motorista dela, e acabamos contratando uma agência quando chegamos lá.

Se você estiver de carro, minha dica é ir até a Sernatur (Serviço Nacional de Turismo), que fica na praça principal da cidade, para pegar um mapa e recomendações de quais são os lugares que estão mais floridos no momento. Eu estive lá e fui super bem atendida. A moça que trabalha lá me passou uma lista de agências credenciadas e que realizam o tour pro Deserto Florido, e ainda me indicou os melhores lugares pra ir.

Eu já tinha entrado em contato com algumas agências de Copiapó antes de ir pra lá, mas a verdade é que apenas uma respondeu meu e-mail. Então achei melhor deixar pra fechar tudo quando chegasse lá. Peguei a listinha que a Sernatur me deu e saí para visitar algumas. De cara já encontrei duas fechadas e com uma plaquinha na porta escritos “Estamos em excursão. Favor entrar em contato pelo xxxx-xxxx”. Voltei pro hostel e decidi entrar em contato uma a uma por whatsapp. Algumas foram bem rápidas, outras nem me responderam, outras pediram para escrever por e-mail. Eu acabei fechando com a Explo Atacama, que foi excelente escolha e vou contar melhor aqui embaixo. Mas vou passar para vocês aqui alguns preços que consegui pesquisar:

Ecotour and Mining Support: tour de dia inteiro privado por 200.000 pesos (307 dólares) para duas pessoas incluindo almoço e snacks. Contato: +56995482222

Atacama Exploration Tourism: tour de dia inteiro por 35.000 pesos por pessoa (53 dólares) em grupos de mínimo de 9 pessoas, incluindo almoço e snacks. Contato: +56983219100

Geo Adventures: tour de dia inteiro por 35.000 pesos (53 dólares) sem almoço ou 45.000 pesos (69 dólares) com almoço em grupos de 20 pessoas.

Puna de Atacama: tour de dia inteiro privado por 216.000 pesos (332 dólares) para duas pessoas incluindo alimentação e bebidas. Contato: +56990513202

Explo Atacama: tour de dia inteiro privado por 144.000 pesos (221 dólares) para até 6 pessoas, sem incluir alimentação. Contato: +56996456404 falar com Emilio, que foi meu guia.

Atenção: muitas agências tinham grupo apenas aos sábados. Normalmente passam a buscar no hostel por volta de 9h da manhã, retornando no fim da tarde. Por um acaso, era um sábado quando eu estava lá.

Como você pode ver, há tours de diversos preços. Nós quase fechamos um desses tours mais em conta, com almoço, que sairia por 45.000 pesos por pessoa. No entanto, teríamos apenas um dia ali, e não senti tanta firmeza dos lugares que iríamos visitar nestes grupos, ou do tempo que teríamos para tirar fotos. E como eu queria fazer tudo com mais calma para tirar fotos e fazer os vídeos pro canal no YouTube, acabei fechando com a Explo Atacama, que faz parte do grupo Casther. Ficou em 144.000 pesos para nós duas, e não colocamos mais ninguém no carro conosco (na verdade, acabamos não conhecendo ninguém mais que teria interesse em fazer o tour, e preferimos não transformar nosso tour privado em um grupo grande com pessoas desconhecidas e interesses diferentes dos nossos). Um pouco mais caro, mas no fim posso dizer que valeu cada centavo.

Eu conversei por telefone diretamente com o Emilio da Explo Atacama e expliquei pra ele que meu maior interesse era ver as partes floridas do deserto. Ele recomendou, então, que não parássemos em restaurantes para almoçar, pois poderíamos perder tempo, e seria melhor buscar os parques mais floridos, que ficam na beira da estrada. Então eu e minha amiga fomos ao mercado, compramos pão, queijo, cream cheese, e preparamos alguns sanduíches pra levar. Compramos também biscoitinhos, água, e até uma garrafinha de pisco (hahaha Juro!).

Às 9h10 o Emílio passou para me buscar com o Don Hector, motorista super educado que nos levou para um tour que durou quase 11 horas! O dia começou “feio”, com muita neblina. A gente parava em alguns campos de flores, mas nem dava para ver bem a imensidão colorida por causa da névoa. Juro que nesse momento fiquei um tanto decepcionada, e cheguei a pensar que as fotos que vi na internet eram photoshop. Já me imaginei até escrevendo um post pro blog contando minha decepção.

Mas não demonstrei aquilo. Desci, tirei fotos, fiz vídeos.

Era bonito. Mas ainda não era o que eu esperava.

Até que chegamos numa estradinha que leva até a Hacienda Castilla, bem próximo a Copiapó – se estiver de carro, recomendo entrar aqui! Ainda com o céu nublado, descemos e tiramos algumas fotos legais.

Aos poucos o tempo foi abrindo, e íamos parando em lugares às vezes nem tão floridos, mas com bastante espécie diferente de flor (algumas em extinção), às vezes super floridos e bonitos. Perto de Totoral foi onde vimos mais flores até então.

A essa altura eu já estava me apaixonando mais pelo deserto florido, e um dos campos de flores rosas onde paramos parecia até um quadro, de tão lindo. Ficava perto de Carrizal Bajo, no caminho para Huasco (já na região do Parque Llanos de Challe), e tiramos fotos maravilhosas, antes de seguirmos para conhecer algumas praias.

Aliás, este foi outro detalhe que me chamou a atenção: em certos momentos estávamos dirigindo com um mar super azul à nossa esquerda e um desertão à nossa direita. Sim, a natureza é perfeita, é imprevisível, é encantadora.

Foi quando nosso guia olhou pra trás e viu que estávamos tomando nossa garrafinha de pisco (hahahaha #somosdessas) e disse que ia parar pra comprar uma cervejinha também. Compramos 2 packs com 6 latinhas, e seguimos para Playa Blanca, um lugar super lindo perto de Vallenar (cobra-se 3.000 pesos por pessoa pra entrar, cerca de 4,50 dólares).

Pensem numa praia linda! Descemos do carro e ficamos ali mais de uma hora sentados, tomando a cervejinha, aproveitando a brisa de beira de praia, admirando aquele mar azul, os pássaros passando voando.

Nesse momento eu achei que o tour não poderia ficar melhor. E no meio da conversa, comentei com o Emilio que tinha visto umas fotos de deserto florido na internet, mas que deviam ser de anos anteriores, pois o chão realmente parecia um tapete de flores. Ele me pediu pra mostrar pra ele, busquei no Google e, ao olhar, ele falou “Isso aqui é na travesía! A gente vai passar lá na volta pela Ruta 5”. Quase morri! Perguntei “Você promete?”. Ele prometeu.

Quando o sol abaixou e começou a esfriar, juntamos nossas latinhas numa sacola e voltamos pro carro. Passamos por Vallenar, e dali pegamos a Ruta 5 de volta para Copiapó. Eu cochilei um pouco, e de repente acordei com flores na estrada pra todos os lados. Dei um pulo! Já voei no Don Hector, nosso motorista, e pedi “Podemos parar aqui, por favooooor!!”. Ele disse “mais pra frente vamos parar num lugar certinho onde se pode entrar perto das flores”. Eu nem piscava! Olhava pro entorno da estrada e começava a entender as fotos que vi na internet. Se o que eu tinha visto antes já era lindo, aquilo ali parecia uma grama rosa em meio à grama verdadeiramente verde, de tão intenso.

Quando ele parou o carro, eu desci correndo igual criança! “Simmm!!! Finalmente, esse era o deserto florido que eu queria!!!!!”. Atenção: é muito importante respeitar os caminhos de terra e sem flor para pisar, pois na região há flores em extinção, e é tão raro aquilo ali acontecer, que não podemos nos empolgar e pisar nas pobrezinhas. Respeitar a natureza é fundamental! Com bastante atenção, você vai encontrar uns pedaços apenas com areia para tirar fotos lindas.

Foi o que fizemos. E nessa hora meu coração se encheu da certeza de que valeu a pena viajar 700km para estar ali, valeu a pena contratar um tour privado que sabia exatamente o que eu queria ver e respeitou meu tempo em todos os lugares onde parei para tirar fotos, valeu a pena esperar a neblina desaparecer para tirar aquelas fotos com o céu azul incrível atrás.

Quanta gratidão viver tudo isso! Voltamos a Copiapó em êxtase! Se vale a pena visitar o deserto florido? VALE MUITO! Mas, depois desse tour, vi como foi importante ter um guia conosco, pois a região que floresce é enorme, e sozinhas poderíamos ficar meio perdidas sem saber quais seriam os melhores pontos e acabar perdendo tempo andando pra lá e pra cá. O Emilio conhecia muito bem a região, e soube nos levar onde as paisagens estavam mais lindas.

Fica aqui mais uma vez o contato dele: +56996456404. Ele trabalha na Explo Atacama e organiza diversos tours na região.

Esta foi mais ou menos a rota que fizemos:

O que mais fazer em Copiapó?

A verdade é que eu não tive tanto tempo pra percorrer a região. Na única tarde que tive livre, fui conhecer a fofa Bahía Inglesa. Mas o Emilio falou que há diversos trekkings na cordilheira, além de várias outras praias bonitas pra conhecer.

Foi em Copiapó também que aconteceu aquele acidente onde 33 mineiros ficaram presos a mais de 600m abaixo do solo por quase dois meses, e todos sobreviveram. Hoje é possível visitar a Mina San Jose, que não funciona mais.

Eu fui até Bahía Inglesa em ônibus de Copiapó a Caldera (2.200 pesos o bilhete ou 3,40 dólares por um trajeto de uma hora – se comprar ida e volta sai a 3.500 pesos, ou 5,40 dólares). Os ônibus saem mais ou menos a cada 20 minutos. O terminal de onde saem ônibus para lá fica ao lado do supermercado Líder, pertinho de outros terminais de ônibus e dá para ir andando desde a praça principal. Chegando a Caldera, peguei um táxi coletivo que cobrava 1.000 pesos (1,50 dólares) para deixar na Bahía Inglesa.

Que lugar lindo! Pequenininho, super fofo, com um mar bastante azul, restaurantes legais de frente pra praia. Deu vontade de voltar no verão só pra me hospedar ali.

Como estava frio, não pegamos praia, sentamos num dos restaurantes de frente pra praia e aproveitamos a dose dupla pra tomar uma cervejinha (2 canecos de 500ml estavam por 2.500 pesos (3,80 dólares).

Eu fiquei dois dias inteiros em Copiapó, e foram suficientes para fazer o que eu queria. Mas ainda pretendo voltar pra explorar melhor as praias e os trekkings da região.

E você, já viu algum deserto florido? Parece que os únicos no mundo são no Chile, nos Estados Unidos e na Austrália. Que alegria já ter conhecido um deles!

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Carla Boechat é jornalista, mestranda, curiosa que só, carioca da clara, inquieta e turista por vocação - e criação. Sempre com a mochila e um sorriso prontos, aposta que toda estrada pode esconder uma dica em potencial. E aqui é assim: se ela foi e gostou, virou post!

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